ADORNO

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

O ARTISTA E O MISTÉRIO DA CLASSE



O que é inquietante nesse momento é o fato dos artistas estarem tão longe das necessidades e compreensão do trabalhador, provavelmente essa afirmativa leve a indignação de muitos dos meus companheiros de teatro e música, porém não posso fugir desse pensamento e ignorá-lo não me traria benefício algum.
Isso é um fato social, que tem haver com classe e não com o indivíduo ou grupos. O artista enquanto grupo, pode pesquisar os anseios da classe trabalhadora e criar seu espetáculo, assim como um grupo de empresários pode se unir a esse anseio também ou uma instituição burguesa. Quando isso acontece eles mudam suas prioridades. Não é desses artistas que desejo falar.
Um artista não pode ser considerado dono de meios de produção, mas seu padrão de vida é burguês e deve ser assim para não se tornar um miserável, como aqueles de onde ele extrai a matéria prima de seu trabalho, ele próprio sofre a exploração da sua força de trabalho assim como na oferta de seu produto, o que economicamente não o coloca em oposição ao trabalhador formal, assim como suas condições de vida e trabalho nada tem haver com as do trabalhador formal e isso gera conflitos nos seus sentimentos e ideias.
Como trabalhador isolado, ele trabalhador não é nada, a não ser em conjunto com outros trabalhadores organizados que ele pode ser visto como classe, como uma massa anônima de luta, executa qualquer serviço para o sucesso concreto dessa classe, já o artista não luta por meio da força, mas pelo que extrai dessa classe, que transforma em argumentos, roteiro para um espetáculo. Sua ferramenta é a pesquisa, o conhecimento, sua habilidade e suas convicções em transformar os materiais em algo lúdico. Essa “liberdade” parece ser a condição básica para sua criação.
Somente nos momentos de ataque as suas produções, no corte de apoio financeiro ele se subordina ao todo e somente o faz por necessidade não por inclinação, por isso difere da classe trabalhadora, pois não se enxerga e não se une enquanto classe.
Além dessa diferença entre o artista e a classe trabalhadora, há o fato de ele muitas vezes sem perceber se tornar um grupo arrogante, concebendo a si superioridade sobre classe trabalhadora. Para o artista não é difícil não reparar na classe trabalhadora como um companheiro de luta, ele vê esse trabalhador como um ser humano subdesenvolvido. Ele vê uma pedra bruta que deve ser cuidada e lapidada, para ser transformado em elemento artístico. Como seres de um notório saber não cooperam com a classe trabalhadora, mas são uma força de assistência social de auxílio.
A cooperação do artista com a classe trabalhadora, não está somente na exposição das suas contradições enquanto trabalhador ou nos seus conhecimentos trazidos das salas de aulas burguesas, mas em como cada um é capaz de lutar cotidianamente para se fortalecer enquanto classe.
Essa atitude deve e pode contribuir para a emancipação do trabalhador, e só pode ser feita pelo trabalhador ou através dele. O que os artistas trazem da academia burguesa não serve para avançar na luta por emancipação, muitas vezes só faz retardá-la.
Ibsen demonstra isso em o Inimigo do Povo através de seu personagem Dr. Stockmann que não é um socialista, como alguns defendem, mas sim um intelectual que está pronto a entrar em conflito com a classe trabalhadora. A base da luta da classe trabalhadora é o respeito entre uns e outros. Já o Dr. Stockmann considera uma maioria organizada como um monstro que deve ser derrubado.
Nesse espetáculo da vida, cada qual combate com as armas disponíveis, mas sempre é preciso ter claro que isso se faz unidos como classe contra aquele que nos oprime.


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