Se no futuro resolverem falar e viver a verdade, o
século 21 com certeza ganhará o prêmio da mentira e da reafirmação histórica
dela.
Depois do termo pós-verdade, veio à tona o termo fake
news, ou notícia falsa. Quando pesquisamos nossas estórias do passado,
descobrimos que precisamos desconfiar até nós mesmos e quando se trata do
ambiente digital a desconfiança é maior ainda.
Segundo alguns historiadores notícias falsas sempre
existiram. Num texto chamado anedota no século 6 já se espalhava mentiras. O
jornalista Aretino em 1942-1556 é considerado o maior difusor desse tipo de
notícia principalmente sobre os cardeais da época, o que também devemos duvidar
já que o título foi dado por quem se sentia difamado. Em Londres nos anos 1770
os homens parágrafos recolhiam e vendiam fofocas a editores, que publicavam
reportagens sensacionalistas e difamatórias sobre figuras importantes da época.
Segundo Rosseau é raro e difícil que uma notícia seja
inocente. Quando se mente é para levar vantagem, é fraude, para prejudicar é
calúnia considerada a de pior espécie de mentira.
Para Emmanuel Kant
aquele que mente, por mais com boas intenções que esteja ao mentir, tem de
responder pelas consequências de sua mentira. Aqui fica apenas uma pergunta:
quem responde pela exagerada produção de notícias falsas criadas em ambiente
digital? Difícil acreditar que a verdade esteja de um lado só.
O teólogo e filósofo, Tomás de Aquino diferenciava entre três tipos de
mentira: a viciosa, que visa enganar por um motivo vil mesmo; a oficiosa, que
visa algum bem; e a jocosa, que visa divertir ou entreter. Essas duas últimas
são, na opinião dele, pecado venial, ou seja, não muito graves, mas ainda assim
moralmente erradas. Aquino diz que mentir é sempre errado, mas apenas as
mentiras para fazer mal, são as consideradas pecados mortais. Aquelas mentiras
criadas para divertir e para ajudar os outros são perdoáveis.
Por mais contraditório
que possa parecer inicialmente, existe uma Ética, inclusive, no ato de Mentir,
a denominada “Ética da Mentira”. A depender da justificativa ou motivação que
se usa para fundamentar este ato, a Mentira será ou não aceita socialmente. Sua
concordância ou repulsa dependerá ainda do contexto social, do ordenamento
jurídico, da política, da religião, enfim, da cultura em que ela fora
empregada. É passível o entendimento de que a verdade absoluta, em toda e
qualquer circunstância, tornaria as relações sociais insustentáveis. Mas é
preciso questionar até que ponto, em quais circunstâncias, a Mentira é legítima
e necessária. A legitimidade de sua aplicação deve ser mais minuciosamente
pensada quando se faz presente na política, na regência de um governo e até
mesmo positivada no ordenamento jurídico.
A Moral se
manifesta como a prática de uma Ética. Ética é a concepção, é princípio, que se
traduz numa Moral. O princípio de não pegar o que não me pertence, por exemplo,
se concretiza com a atitude de roubar ou não. Algumas pessoas consideram uma
relação sócio afetiva entre pessoas do mesmo sexo imoral. Isso porque a Moral é
relativa e depende do que indivíduo tem como referência de Ética e o contexto
histórico o qual ele está inserido. Por fim, a Ética é sempre de uma época e de
um grupo, mas tem como aspiração a tentativa de ser universal. Desta feita,
para definirmos Ética devemos levar em consideração que a mesma sempre está
inserida no contexto da ação, por ser uma ciência normativa que direciona as ações
humanas.
Friedrich
Nietzsche afirma que a grande maioria daquilo que atribuímos como verdade, só é
considerada como tal, devido a uma construção social, linguística e cultural.
Desse modo, concluiu que as falsas moralidades funcionam mais como prática de
uma ética de mentiras do que de virtudes autênticas.
O filósofo
alemão acreditava que a mentira ganha forma de verdade quando a pessoa que é
enganada não possui provas ou pensamentos lógicos para refutar o que lhe foi
transmitido, dessa forma, a mentira pode se prolongar durante muito tempo,
sendo considerada uma verdade inquestionável. Por isso que muitos são enganados
pela mentira, porque pensam que a mesma é verdade. O que é portanto a verdade?
Uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma
soma de relações humanas que foram realçadas, transpostas e ornamentadas pela
poesia e pela retórica e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis,
canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo: as verdades são ilusões das
quais se esqueceu que são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível,
moeda que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas apenas
como metal (NIETZSCHE, 2007, p. 56).
Essa prática,
tão comum na nossa sociedade, pode ser notada com clareza quando analisamos as
posturas dos nossos representantes políticos, que fazem falsas promessas aos
cidadãos, desviam o dinheiro público e mesmo com tantas provas evidentes ou
forjadas, negam que o tenham feito. Esse costume de mentir, que foi consolidado
ao longo dos anos, gera consequências gravosas. Como possuímos o hábito de
mentir, acabamos não percebendo com facilidade determinadas mentiras e, por
conseguinte, disseminamos esse costume por ser uma das maiores dificuldades do
homem, se não a maior, perceber, atribuir um juízo de valor, sobre o que
estamos acostumados a fazer ou pensar, se é correto ou errado.
Ninguém assume
coisa alguma. Ninguém jamais confessa suas motivações, nada. Sempre há um bom
pretexto, uma estória mirabolante a justificar qualquer coisa, por mais
estranha e inverossímil que possa parecer. Inventam-se álibis, desculpas
esfarrapadas e enredos dos mais diversos para escapar ou acusar. E o pior de
tudo é que, na maioria das vezes, cola.