ADORNO

ADORNO

terça-feira, 17 de julho de 2018

DESEJO SER DONO DE MIM MESMO.



Como é possível defender a multiplicidade cultural e, ao mesmo tempo, a ideia de que existe apenas uma estética, válida para todos? Seria o mesmo que defender a democracia e, ao mesmo tempo, a ditadura. (A estética do oprimido - Augusto Boal)
Não tenho me manifestado muito nas redes sociais, primeiro pelos dias repletos de atividades de uma vida para cuidar, segundo pela preguiça de me manifestar e saber que nada que eu faça mudará radicalmente o curso da história. De qualquer maneira é sempre bom dividir pensamentos com aqueles que pensam. Fiquei incomodado com a atitude da Justiça Federal, que em caráter liminar no que diz respeito a liberdade de amar, agrediu a comunidade LGBT, considerando doença a livre escolha de cada um. Não é a primeira vez que o judiciário ataca o prazer e o amor entre as pessoas. Na década de 80, houve uma agressão parecida contra o amor: “A noite do beijo de Sorocaba”, quando um juiz proibiu o beijo em praça pública, principalmente aquele definido por ele como “beijo ventosa” – beijo língua a língua, barulhento e que ao final, faz o som de um chupão.
Companheiros segundo pesquisa da Associação Internacional LGBT, 73 países consideram a homossexualidade como crime e em 13 deles a punição pode ser a morte. Amar é algo saudável, pelo menos penso assim, a doença a ser tratada por psicólogos e psiquiatras está naqueles que cometem atrocidades contra a liberdade em nome de um falso moralismo. Se a masculinidade lhe basta e tudo provêm, parabéns, só deixem os outros com suas liberdades de escolha. A negação as mudanças conquistadas é negar um futuro saudável. Porque ensinar religião pode e a sexualidade não nas escolas? Professores não querem e não são preparados para falar, de pênis, buceta, cu, doenças sexualmente transmissíveis, valores do corpo, a mulher objeto etc. Aliás para que serve uma mulher ao homem depois do sexo? Assim a escola vai ajudando a fomentar o ódio, a doença e a decadência social. Tudo nos vem pronto, e nós dizemos amém.
Um corpo só existe em relação com os outros, só somos quando nos tornamos corpo, do qual somos donos e não somos, existe uma relação de corresponsabilidade entre os corpos, sejam eles humanos. Nossas liberdades pessoais são proporcionais a liberdade daqueles que estabelecemos nossas relações, se há corpos oprimidos ao meu redor, minha liberdade estará de alguma forma comprometida, não há como ser um corpo saudável entre enfermos.

SIDNEY NUNES.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

FELIZ IDADE


Fui infectado alguns anos atrás, para ser mais exato na década de 90, por essa arte chamada filosofia. Acho que foi quando ganhei das mãos da professora Marilena Chaui, com dedicatória e tudo seu livro “ Introdução a filosofia”. Dali para cá, definho rapidamente, com a certeza de que se o inferno existe é aqui! Desculpem a frase feita, mas foi a única que me veio à mente nessa hora.
Sou movido a utopia, tenho boa saúde, nunca entrei em um hospital, não tenho amigos de fato, todos foram efêmeros, assim como meus cinco casamentos e 3 filhos, logo, não amo e nem me sinto amado.
Difícil aceitar, mas a vida chegou num momento de transição, onde nada é mais recuperável; com alguns cabelos brancos, musculatura com princípios de flacidez, um corpo já não tão ágil, estou incapaz de dar porradas, quanto mais receber; aproxima-se o momento de ter como contato principal na agenda o telefone do SAMU e nunca esquecer de levar na pochete um item imprescindível: A fralda geriátrica. Tenho a certeza de que não verei o mundo que quero e pelo qual lutei e luto.
Não consegui ser feliz, talvez porque ainda procuro, se procuro não encontrei. Escreveu uma vez Cecília Meirelles:

“ És precária e veloz, felicidade,
custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.”

Será? Tentei...tentei...tentei...tento de novo...
Já bebi muita Coca-Cola, muitas vezes bêbado, rezei, chorei, rezei, cherei, fumei, comi cogumelos e até tentei consultar Carlos Castanheda, fiz simpatias para emagrecer e ficar jovem para sempre.
A felicidade não jorrou, não alimentou, não encheu os pulmões, ninguém escutou, continuo enrugando o tempo e com uma baita sensação de infelicidade.
Nem meus heróis, nem Cazuza foram felizes, muito menos Cássia Eller, talvez se eu ainda fosse uma menininha em meias ¾ quem sabe? Quando acordo sorridente e comunicativo, alguém confunde com felicidade e diz: Que foi? Viu um passarinho verde? Não vai ser sempre assim...
Me recuso aos falaciosos argumentos do mundo capitalista sobre os modelos de felicidade baseados no consumismo ou em um mundo perfeito proposto pelo socialismo. Não posso acreditar em felicidade a partir do que possuo, isso é prazer, muito menos em uma ideia de felicidade baseada em sofrimento, lutas e conquistas. Nunca fui, não sou e nem serei eventualmente feliz. Não acredito muito nisso, pois levo sempre em conta o outro, é como ser ateu, negar a existência de algo é admitir que algo existe, vou sair desse embrólio dizendo que estou com Wave de Tom Jobim:
“È impossível ser feliz sozinho, o resto é mar...”
Agora que estou deixando a adolescência posso confessar, que não guardei ou cultivei felicidade, por isso quando encontrar não saberei o que é, também não a confundirei com prazer, euforia, bem-estar como fazem muitos. O certo é que faço como Frank no consultório do psicanalista:
“- Eu não quero fugir da realidade doutor. Eu só quero que ela me deixa em paz um pouquinho...”


A FORMIGA E O ARTISTA


A produção artística na minha opinião continua cheia de contradições, acredito que perdurará assim se desenvolvendo pelo mundo afora, entre conflitos, soluções efêmeras, num looping histórico.
As representações continuarão pobres, abstratas, esquemáticas, em face ao que a realidade produz, mas a criação artística traz em si o imprescindível nada que muda tudo.
Os grupos sempre continuam dando a impressão de que algo novo e único, com traço original está gestando, contagiando a todos, assim são os artistas.
Ao artista nada é preciso, criam-se ideias que se trocam, palavras que vão para além e que dizem que a vida social é mais que um hábito adquirido e transmissível. Esse artista está mais para a cidade, como a formiga está para o formigueiro, ao passo que a formiga é objetiva, o artista reinventa, varia a forma do mundo em que vive conforme sua necessidade histórica, cultural e econômica.

COMUNICADO DE UM CEGO À AQUELES QUE VÊEM.


Há um limite para tudo e todos, que depois de atingido, só lhe resta a queda.

Para que possamos alcançar um estado de liberdade, é necessário que tenhamos a consciência do fim de um determinado fenômeno histórico. Com essa consciência o homem alcança sua soberania para tirar daquilo que viveu e presenciou, um significado, a vida então passa a ser livre do conhecimento conceitual e das teias do pensamento dogmático.