Intertexto com Carlos Nelson Coutinho
Em
CADERNOS DO CÁRCERE – Gramsci, a grande política compreende as questões ligadas
a fundação de novos Estados, a luta pela destruição, pela defesa, pela
conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico sociais. A pequena
política compreende as questões parciais cotidianas que se apresentam no
interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela
predominância entre diversas frações de uma mesma classe política (política do
dia a dia, política parlamentar, de corredor, de intrigas). Portanto, é grande
política tentar excluir a grande política do âmbito interno da vida real e
reduzir tudo a pequena política.
É
precisamente assim através da exclusão da grande política que o neoliberalismo
se estabelece enquanto teoria e prática e leva a um pensamento hegemônico. Uma
relação de hegemonia é estabelecida quando um conjunto de crença e valores se
enraíza no senso comum, numa concepção de mundo que Gramsci definiu como
“bizarra e heteróclita”, com frequência contraditória que orienta – muitas
vezes sem plena consciência – o pensamento e a ação de grandes massas de homens
e mulheres. Ora, podemos constatar que predominam, hoje, no senso comum,
determinados valores que asseguram a reprodução do capitalismo, ainda que não o
defendam diretamente. Refiro-me, em particular ao individualismo (Tão
emblematicamente expresso na “Lei de Gerson”, ou seja, a que nos revela obter
vantagem em tudo), ao privatismo (A convicção que o Estado é um mau gestor e
que tudo se deve deixar ao jogo do livre mercado), a naturalização das relações
sociais (o capitalismo pode até ter seus lados ruins, mas corresponde a
natureza humana), etc.
Cabe
lembrar que hegemonia é consenso e não coerção. Como Gramsci observa, existe o
consenso ativo e o consenso passivo. A hegemonia da pequena política se baseia
precisamente no consenso passivo. Esse tipo de consenso não se manifesta pela auto-organização,
pela participação ativa das massas por meio de partidos ou outros organismos da
sociedade, mas simplesmente pela aceitação resignada do existente como algo
natural. Quantas vezes ouvimos que políticos são todos iguais? Essa corrente de
pensamento das elites e não como ação das maiorias foi teorizada por grandes
expoentes da teoria política do século XX, como Sartori entre outros. Para eles
a política é sempre ação de minorias, de elites. Alguns como Schumpeter reduz a
democracia ao processo de seleção das elites por meio de eleições periódicas; mas,
ao mesmo tempo, também afirma que o povo não sabe combinar interesse e razão,
também contribuem para a hegemonia dessa pequena política aqueles que difundem
que vivemos o fim das ideologias (exemplo a escola sem partido), que as
diferenças entre esquerda e direita desapareceram.
Uma
versão sofistica do pós-modernismo, defende a ideia de que a era das grandes
narrativas morreu, e, no lugar de um ponto de vista totalizante e universal,
devemos nos preocupar com as diferenças, com as identidades, com a defesa do
multiculturalismo, etc. Essa fragmentação das lutas em setores – que separadas
de uma visão do todo, uma visão universal, não põem em questão o domínio do
capital, e podem, assim por ele ser assimiladas – contribuindo para o
fortalecimento da pequena política.