ADORNO

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A HEGEMONIA DA PEQUENA POLÍTICA




Intertexto com Carlos Nelson Coutinho

Em CADERNOS DO CÁRCERE – Gramsci, a grande política compreende as questões ligadas a fundação de novos Estados, a luta pela destruição, pela defesa, pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico sociais. A pequena política compreende as questões parciais cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre diversas frações de uma mesma classe política (política do dia a dia, política parlamentar, de corredor, de intrigas). Portanto, é grande política tentar excluir a grande política do âmbito interno da vida real e reduzir tudo a pequena política.
É precisamente assim através da exclusão da grande política que o neoliberalismo se estabelece enquanto teoria e prática e leva a um pensamento hegemônico. Uma relação de hegemonia é estabelecida quando um conjunto de crença e valores se enraíza no senso comum, numa concepção de mundo que Gramsci definiu como “bizarra e heteróclita”, com frequência contraditória que orienta – muitas vezes sem plena consciência – o pensamento e a ação de grandes massas de homens e mulheres. Ora, podemos constatar que predominam, hoje, no senso comum, determinados valores que asseguram a reprodução do capitalismo, ainda que não o defendam diretamente. Refiro-me, em particular ao individualismo (Tão emblematicamente expresso na “Lei de Gerson”, ou seja, a que nos revela obter vantagem em tudo), ao privatismo (A convicção que o Estado é um mau gestor e que tudo se deve deixar ao jogo do livre mercado), a naturalização das relações sociais (o capitalismo pode até ter seus lados ruins, mas corresponde a natureza humana), etc.
Cabe lembrar que hegemonia é consenso e não coerção. Como Gramsci observa, existe o consenso ativo e o consenso passivo. A hegemonia da pequena política se baseia precisamente no consenso passivo. Esse tipo de consenso não se manifesta pela auto-organização, pela participação ativa das massas por meio de partidos ou outros organismos da sociedade, mas simplesmente pela aceitação resignada do existente como algo natural. Quantas vezes ouvimos que políticos são todos iguais? Essa corrente de pensamento das elites e não como ação das maiorias foi teorizada por grandes expoentes da teoria política do século XX, como Sartori entre outros. Para eles a política é sempre ação de minorias, de elites. Alguns como Schumpeter reduz a democracia ao processo de seleção das elites por meio de eleições periódicas; mas, ao mesmo tempo, também afirma que o povo não sabe combinar interesse e razão, também contribuem para a hegemonia dessa pequena política aqueles que difundem que vivemos o fim das ideologias (exemplo a escola sem partido), que as diferenças entre esquerda e direita desapareceram.
Uma versão sofistica do pós-modernismo, defende a ideia de que a era das grandes narrativas morreu, e, no lugar de um ponto de vista totalizante e universal, devemos nos preocupar com as diferenças, com as identidades, com a defesa do multiculturalismo, etc. Essa fragmentação das lutas em setores – que separadas de uma visão do todo, uma visão universal, não põem em questão o domínio do capital, e podem, assim por ele ser assimiladas – contribuindo para o fortalecimento da pequena política.




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