ADORNO

ADORNO

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O EXISTENCIALISMO



O termo existencialismo reúne diversas correntes filosóficas que têm como ponto de partida a situação existencial do homem. Falamos também da filosofia existencial do século XX. Muitos dos pensadores que se podem chamar existencialistas basearam as suas ideias não apenas em Kierkegaard mas também em Hegel e Marx.
Um outro filósofo que teve muita influência no século XX foi o alemão Friedrich Nietzsche que viveu entre 1844 e 1900. Nietzsche também reagiu à filosofia de Hegel e ao «historicismo» alemão proveniente dela. A um interesse anémico pela história contrapôs a própria vida. Exigia uma «transformação de todos os valores». Recusava sobretudo a moral cristã - a que chamou «moral dos escravos» - para que a força vital dos fortes não fosse reprimida pelos fracos. Segundo Nietzsche, tanto o cristianismo como a tradição filosófica se tinham afastado do mundo verdadeiro e dirigido para o «céu» ou o «mundo das ideias». Eram considerados o «verdadeiro mundo» mas eram na realidade um mundo falso. «Sede fiéis à terra», disse. «Não deis ouvidos àqueles que vos oferecem esperanças sobrenaturais.»
Um filósofo existencialista que foi influenciado por Kierkegaard e por Nietzsche foi o alemão Martin Heidegger.
Mas vamos concentrar-nos no existencialista francês Jean-Paul Sartre, que viveu entre 1905 e 1980. Foi o filósofo existencialista mais influente, pelo menos para o grande público. Elaborou o seu pensamento sobretudo nos anos 40, após a II Guerra Mundial. Em seguida aderiu ao movimento marxista francês, mas nunca foi membro de nenhum partido.
Sartre afirmou: «Existencialismo é humanismo.» Significa que o existencialismo parte exclusivamente do homem. Podemos acrescentar que o humanismo de Sartre vê a situação do homem de uma forma diferente e mais sombria do que o humanismo do Renascimento. Kierkegaard e alguns existencialistas do nosso século eram cristãos, mas Sartre defende o que chamamos um existencialismo ateu. A sua filosofia pode ser considerada uma análise impiedosa da situação humana desde que «Deus morreu», uma expressão de Nietzsche.
A palavra-chave da filosofia de Sartre, como para Kierkegaard, é existência, um termo que não significa o mesmo que «existir». Também as plantas e os animais existem, ou seja, vivem, mas não sabem o que isso significa. O homem é o único ser vivo consciente da sua existência. Sartre diz que as coisas físicas são «em si», mas o ser humano é também «para si». Ser homem é portanto diferente de ser uma coisa.
Sartre afirma também que a existência humana é anterior ao seu significado: o facto de eu existir é anterior ao que eu sou. «A existência precede a essência», afirmou.
Como essência entendemos aquilo que uma coisa é realmente, a «natureza» de uma coisa. Para Sartre, o homem não tem nenhuma natureza deste género, por isso deve criar-se a si mesmo: deve criar a sua natureza ou «essência» porque esta não está dada a priori.
Durante toda a história da filosofia, os filósofos tentaram responder à questão de o que é um homem - ou qual é a natureza do homem. Segundo Sartre, por seu lado, o homem não possui nenhuma «natureza» eterna. Por isso é inútil procurar o significado da vida em geral. Por outras palavras, estamos condenados a improvisar. Somos como actores que são mandados para cena sem ter um papel, um guião ou um ponto que nos possa sussurrar aquilo que devemos fazer. Nós próprios temos de escolher como queremos viver.
Mas quando o homem sente que vive, e que vai morrer um dia, e sobretudo quando não vê sentido em tudo isto, gera-se a angústia, segundo Sartre. A angústia era também um elemento importante na descrição que Kierkegaard fizera do homem que se encontra numa situação existencial.
Sartre diz ainda que o ser humano se sente estranho num mundo privado de sentido. Quando descreve a «alienação» do homem, aceita ideias centrais de Hegel e de Marx. A sensação humana de se ser um estranho no mundo gera um sentimento de desespero, tédio, náusea e absurdo.
Os humanistas renascentistas tinham afirmado quase triunfalmente a liberdade e a independência do homem. Sartre sentia a liberdade humana como uma maldição. «O homem está condenado a ser livre»; afirmou. Condenado porque não se criou a si mesmo, mas todavia é livre, porque quando é posto no mundo é responsável por tudo o que faz.
Não pedimos a ninguém que nos criasse como seres livres,  é essa a questão, segundo Sartre. Porém, nós somos indivíduos livres e a nossa liberdade faz com que durante toda a vida estejamos condenados a escolher. Não existem nem valores eternos nem normas pelas quais nos possamos orientar. Por isso é ainda mais importante a escolha que fazemos, porque somos totalmente responsáveis pelas nossas acções. Sartre põe em evidência justamente o facto de o homem não poder negar a sua responsabilidade pelo que faz: deve tomar as suas decisões e não pode, para se subtrair a essa responsabilidade, afirmar que «devemos» trabalhar ou «devemos» orientar-nos por determinadas perspectivas burguesas acerca do mundo no qual «devemos» viver. Quem se envolve assim na massa anónima é apenas um homem massificado e impessoal (aliena-se): foge de si mesmo e vive uma vida de mentiras. A liberdade humana, pelo contrário, impõe-nos que façamos algo de nós mesmos, que existamos «de um modo autêntico».
Isso é válido sobretudo para as nossas escolhas éticas. Não podemos nunca atribuir a culpa à «natureza humana», à «fraqueza humana», ou coisa semelhante. Por vezes sucede que certos homens se comportam de modo ignóbil e empurram a sua responsabilidade para o «velho Adão», que supostamente têm em si. Mas esse «velho Adão» não existe, é apenas uma personagem a que recorremos para fugirmos à nossa responsabilidade.
            Se bem que Sartre afirme que a vida não tem significado algum a priori, isso não significa que queira que seja assim: Sartre não era um niilista.  Um niilista é uma pessoa para a qual nada tem significado e tudo é possível. Para Sartre, a vida deve ter um significado, mas somos nós que o devemos criar para a nossa vida: existir é criar a nossa própria existência. Sartre tenta demonstrar que a consciência não é nada antes de percepcionar alguma coisa, porque consciência é sempre consciência de alguma coisa. E essa coisa depende tanto de nós como do ambiente que nos rodeia: nós próprios temos um papel activo no que percepcionamos, escolhendo o que é importante para nós. Duas pessoas podem estar presentes no mesmo local e senti-lo de um modo completamente diferente, porque, quando percepcionamos o mundo externo, fazemo-lo partindo do nosso ponto de vista ou dos nossos interesses. Por exemplo, uma mulher grávida pode ter a sensação de ver grávidas em todo o lado. Isso não significa que antes não houvesse, mas a gravidez fez com que o mundo adquirisse para ela um novo significado. Uma pessoa doente pode ver ambulâncias por toda a parte...
A nossa existência contribui portanto para determinar o modo como percepcionamos as coisas: se uma coisa não é importante para mim, não a vejo.
Sartre serve-se justamente de um encontro no café para explicar o modo como nós «destruímos» o que não tem importância para nós. Se estás apaixonada e esperas uma chamada do teu namorado, «ouves» durante todo o tempo que não te telefona. Reparas justamente no facto de ele não te telefonar. Se tens de ir ter com ele à estação, e há um mar de gente nas plataformas, tu não vês as pessoas: apenas perturbam, são insignificantes para ti. Se calhar até as achas desagradáveis e repugnantes. Ocupam muito espaço. A única coisa em que reparas é que ele não está lá.
Simone de Beauvoir tentou aplicar o existencialismo à análise dos papéis dos sexos. Sartre tinha afirmado que o homem não tem uma natureza eterna a que se agarre. Nós próprios criamos o que somos.
Isso também se aplica à nossa concepção dos sexos. Simone de Beauvoir defende que não existe uma «natureza feminina» e uma «natureza masculina». Esta é a opinião tradicional. Por exemplo, afirmou-se sempre que o homem tem uma natureza «transcendente», ou seja, que supera o mundo sensível, e por isso procura sempre um significado e um objectivo fora do domínio doméstico. E que a mulher, pelo contrário, tem uma orientação de vida oposta: ela é «imanente», ou seja, quer estar onde está. Por isso se preocupa com a família, com a natureza e com as coisas próximas. Hoje diz-se que a mulher está mais interessada do que o homem nos aspectos mais suaves e doces da vida.
Segundo Simone de Beauvoir não existe uma natureza feminina ou masculina desse género. Pelo contrário: segundo ela, as mulheres e os homens devem libertar-se desses preconceitos.  O seu livro mais importante foi publicado em 1949 e tinha o título O Segundo Sexo. Pensava na mulher, que na nossa cultura foi sempre considerada o «segundo sexo». Só um homem aparece como sujeito nesta cultura. A mulher é tratada como o objecto do homem e por isso é privada da responsabilidade pela sua vida.  Para Simone de Beauvoir, a mulher deve reconquistar esta responsabilidade. Deve recuperar-se a si mesma e não ligar a sua identidade ao homem. Com efeito, não é apenas o homem que oprime a mulher, a mulher também se reprime a si mesma não assumindo a responsabilidade pela sua vida.  Somos nós que decidimos de que modo queremos ser livres e independentes.
O existencialismo também influenciou a literatura desde os anos quarenta até hoje. Isso é válido sobretudo para o teatro. O próprio Sartre escreveu romances e obras teatrais. Outros autores importantes são o francês Albert Camus, o irlandês Samuel Beckett, o romeno Eugène Ionesco e o polaco Witold Gombrowicz. A característica comum a estes  e a muitos outros escritores, foi a tendência para enfatizar a presença do  absurdo na vida, um termo que é usado sobretudo quando se fala de 'teatro.
O «teatro do absurdo» nasceu por contraposição ao «teatro realista» e queria mostrar em cena a falta de sentido da existência. Esperava-se que os espectadores não apenas vissem mas também reagissem. Mas não se tratava de um culto do absurdo. Pelo contrário, mostrando e pondo a nu o absurdo, por exemplo nos acontecimentos de todos os dias, o público era forçado a reflectir na possibilidade de uma existência mais autêntica e verdadeira.
Muitas vezes, o teatro do absurdo apresenta situações completamente banais: por isso podemos falar de uma espécie de «hiperrealismo». O homem é representado exactamente como é. Mas se se mostra na palco de um teatro aquilo que acontece numa casa de banho de um dia qualquer numa casa qualquer, o público começa a rir. Este riso pode ser interpretado como uma defesa por se ser posto a nu em cena.
O teatro do absurdo também pode ter conotações surrealistas: muitas vezes as personagens encontram-se enredadas nas situações mais improváveis e quase oníricas. Se aceitam tudo sem se espantarem, o público é obrigado por seu lado a reagir com perplexidade. Isto também vale para os filmes mudos de Charles Chaplin: o aspecto cómico das suas obras cinematográficas consiste frequentemente na ausência de espanto do protagonista perante as situações absurdas nas quais se encontra. O público é levado a entrar em si mesmo para procurar algo mais verdadeiro e mais autêntico.


Ora, nesse questionar, o problema mais  agudo, mais equívoco e por isso mais discutido, é justamente o problema da morte. E de tal modo isto é assim, que esse problema da morte (e paralelamente o do absurdo, o da angústia e da náusea) se tomou como que o sinal de identificação de uma obra existencialista. Em que consiste esse problema? A que vem ele? Qual o seu significado histórico-social e humano?
 (...)
Antes de mais, reparai bem que na literatura existencialista praticamente não há cadáveres, mesmo quando há mortos (como por exemplo num Malraux), pondo-se quase sempre o problema da mor­te, precisamente a propósito dos vivos. Um «Noi­vado do sepulcro», com os seus esqueletos, seria hoje inconcebível. E um morto, quando nos en­frenta na literatura existencial, não apela nunca para  o que há nele de mórbido, de pútrido (que foi já um modo de conversão cristã) , mas para o que há nele de intrigante, de inquietante. A literatura existencialista não é uma literatura cemiterial - essa que já irritou um Garrett; e mesmo em vez dos mortos prefere os vivos, ou, quando muito os assassinados. Creio esta anotação absolutamente importante, mas eu não vou demorar-me nela, porque, como prometi, desejo ser simples e claro para ao menos uma vez não me acusarem de obscuro.
(...)
Mas o preocupar-se com a morte tende precisamente a preocupar-se com ai vida. Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediá­veis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem. Imediatamente assim vós estareis vendo que longe de ser isso, pois, uma razão de derrotismo, de pessimismo, de inclinações doentias e reaccionárias, é bem pelo contrário um factor de seriedade e de valorização alta do homem em função do qual se fala em reacção e em progresso. Se eu não valorizar a vida do homem (e não posso fazê-lo devidamente, se não souber o que na morte se perde), eu estou apto a destruir um homem com a mesma insensibilidade com que destruo um ver­me. Morte por morte, uma e outra são iguais. O que já não é igual é o que com uma e outra se destrói. Acaso ignorais o vil desprezo com que no nosso tempo se olha a vida de um homem? Mas atenção! Quem evita, sob o pretexto de que é um derrotismo, encarar de frente o problema da morte, está apto a desprezar igualmente  uma vida. Acaso, na verdade, uma vida seria assim tão valiosa, se precisamente não houvesse morte? Eis porque um Lukacs, no início da sua carcereira, encarou esse problema com um radicalismo muito maior, segundo Goldmann, do que o próprio Heidegger. No tempo de um Eça a verdade era o riso boémio, a alegria burguesa; e se o tédio aí aponta algumas vezes, é o tédio de quem tudo tem, o fastio da abundância. Nas obras de um Eça passa-se a vida a comer e a amar, em reuniões mundanas, e a morte afugenta-se para não estragar a festa. Lucaks implanta o problema da morte para impor seriedade à vida


Um outro problema-tipo do existencialismo é o da liberdade - e aqui rumamos agora para Sartre. É impossível desenvolvermos aqui toda a problemática da liberdade e as suas complexas implicações que vão desde a estrutura da consciência até a um domínio moral e a um domínio... dia caricatura, quando se vê no sartrismo uma dou­trina que permite fazermos o que nos apetecer e sobretudo levar uma vida irregular de cabarés e deboche com cabelos compridos e talvez unhas sujas. Tal como a morte, para Heidegger, entra na análise do homem (ou do Dasein), a liberdade para Sartre entra na estrutura da consciência. Quando abordamos, pois, os limites da moral, entramos já num outro campo. O problema moral, aliás, inte­gra-se no ateísmo de Sartre, ou seja no seu esforço de racionalmente recuperar uma ordenação hu­mana adentro dos seus estritos limites, fora portanto de uma dimensão divina. O grande pecado de Sartre, pois, é antepor a tudo um «porquê». Quando Deus estava vivo havia uma Lei que se não discutia. Uma vez morto, todas as leis se discutem. E é nestes extremos de uma injustificabilidade humana e de suas leis, e a necessidade de que uma lei nos oriente e coordene com os outros - é entre estes dois extremos que teremos de situar todo o enorme esforço de Sartre. A polarização de tal esforço determina-se pois, por um lado, pelos direitos individuais; e pelo outro, pelas exigências da  Sociedade. É esta uma tensão terrível e que assim mesmo ele mais nos propôs e esclareceu do que propriamente solucionou. Todo o seu pensamento tende assim a uma Ética; e é bem significativo que, tendo-a ele várias vezes anunciado de uma forma, ou de outra, jamais a tenha escrito. A chamada liberdade absoluta de Sartre tem primeiro de ser interpretada pelo que ele diz ser a estrutura. da própria consciência, ou seja ultimamente pela nossa capacidade de cercar as coisas de negação, ou seja ainda de as pôr à nossa frente, de nos separarmos delas, ao contrário do que acontece com os animais, que vivem colados a essas coisas. Mas aqui entraríamos num domínio estrito da sua filosofia,  naturalmente difícil de analisar nesta conversa que pretendo simples - com o risco embora de ser simplista. Não ocultarei, porém, que, como já pude escrever, Sartre não se desembaraça facilmente dos graves problemas de ordem moral, quando para uma moral prática ele transfere a sua teorização. Mas de um modo genérico poderemos afirmar que, deslocando embora alternadamente o acento para o indivíduo e para a sociedade, para o «eu» e para os «outros», poderemos afirmar que o limite para que ele tende é justamente para uma salvaguarda máxima da liberdade individual dentro de uma organização colectiva.

A Problemática Existencialista


"Aparição não é um romance de intriga, ou no dizer do próprio autor, não é um «romance espectáculo», aquele «que quer dar a imagem do real que nos circunda».
Aparição pode inserir-se nos chamados «romance-ensaio» e/ou «romance de pensamento» - um romance cujo saldo final é uma reflexão, o resultado da soma dos problemas que levanta e para os quais encontra ou não uma resposta."[1]

"Aparição de  Vergílio Ferreira abre por uma espécie de preâmbulo, verdadeiro discurso lírico de forte sortilégio poético, destacado da série numerada dos capítulos e sem qualquer designação atribuída pelo autor. À primeira vista, essas páginas aparecem como qualquer coisa desligada da história propriamente dita. Esta, (a história), começa efectivamente no cap. 1 e vai desenrolar-se ao longo de 25 capítulos.

Tal como as páginas preambulares a que nos referimos, as últimas páginas de Aparição não constituem já um capítulo numerado nem apresentam qualquer designação que lhes defina a função. O narrador tem uma história para contar, e essa história corresponde ao segmento de discurso abrangido pelos capítulos 1 a 25. É curioso notar que as páginas que antecedem e as que prolongam esses 25 capítulos se apresentam em tipo gráfico diferente do utilizado neles.

Quanto à primeira parte (aquela a que chamamos preâmbulo), ela é de facto alheia à história, ou melhor, está já "de fora" da história, mantendo, no entanto, com esta alguma relação. De outro modo, tratar-se-ia de algo inútil, uma vez que não encerrava em si mesmo nenhum factor de funcionalidade. A verdade é que, logo aí, o discurso pessoal sugere uma narrativa de 1ª pessoa, um narrador homodiegético (que posteriormente se evidenciará autodiegético) e, o que sob certos aspectos será relevante um distanciamento de muitos anos” em relação aos factos que irão sendo narrados. O distanciamento é temporal (explicitamente temporal), mas entre os dois" eus" (O que, "nesta sala vazia" relembra, e o que, "muitos anos atrás" agiu, pensou, sentiu), podem ter-se ou não instaurado outras distâncias: ética, afectiva, metafísica...”[2]

Esta obra encerra problemas de natureza metafísica reveladas nas acções e situações nela criadas, seguindo a filosofia existencialista que considera que o homem é a sequência dos seus actos, sendo a sua liberdade de agir e de se projectar que o torna responsável por si e também pelos outros.

"Poder-se-ia dizer que aquilo que torna mais concebível o projecto fundamental da realidade humana é que o homem é o ser que projecta ser Deus. Quaisquer que possam ser em seguida os mitos e os ritos da religião considerada, é antes de tudo "sensível ao coração" do homem como o que o anuncia e o define no seu projecto último e fundamental. E se o homem possui uma compreensão pré-ontológica do ser de Deus, não foram os grandes espectáculos da natureza nem o poderio da sociedade que lha conferiram: mas Deus, valor e fito supremo da transcendência, representa o limite permanente a partir do qual o homem se faz anunciar o que ele é. Ser homem é tender a ser Deus; ou, se preferirmos, é fundamentalmente desejo de ser Deus.”[3]

Para a linha de pensamento filosófica existencialista, o homem tem existência e só depois adquire uma essência. Segundo Sartre - se há uma essência no homem, essa e a própria existência, ligada ao ser e à temporalidade (o ir sendo), mas sempre ligada à escolha e à liberdade[4]. Sartre explica desta forma a sua perspectiva:
"Que significa aqui dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialismo, se não é defensível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é não apenas como ele se concebe mas: como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele se faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que se chama a subjectividade [...]. Mas que queremos dizer nós com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa? Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem antes de mais nada é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projectar num futuro. O homem é antes de mais nada um projecto que se vive subjectivamente em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projecto; nada há no céu inteligível e homem será antes do mais o que tiver projectado ser. Não o que ele quiser ser. Porque o que entendemos vulgarmente por querer, é uma decisão consciente, e que, para a maior parte de nós, é posterior àquilo, que ele próprio se fez. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação de uma escolha mais original, mais espontânea do que o que se chama vontade. Mas, se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo o homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência.

EXISTENCIALISMO

É uma que analisa a existência isto é, o modo de estar do Homem no Mundo, e que considera que este estar não é estático mas um permanente devir


O Homem é o que vai sendo, como se nada lhe preexistisse. É um permanente projecto, condenado à liberdade (de escolher) porque nada o pré-determina. O eu revelar-se-á a si mesmo, mas esta revelação (aparição) faz-se  através do fazer. Este fazer, se, por um lado, pode ser gratificante, por outro pode gerar angústia, sobretudo se não houver fé na imortalidade, ou seja, se se conceber a morte como algo definitivo. O autoconhecimento, a consciência de si próprio, o assumir-se como EU SOU, leva a perguntas do tipo: “eu sou” como? “Eu sou” para morrer? Será concebível que tudo isto que “eu sou”, toda esta vitalidade, toda esta força, toda esta pujança desapareça de um momento para o outro? Aparição coloca-nos perante esta problemática.

DESTA CORRENTE FILOSÓFICA, REVELAM-SE OS SEGUINTES PRESSUPOSTOS:

A existência precede a essência

Existir é igual a ser possível
Existir é um ser para morrer.






O HUMANISMO ABSOLUTO E O MATERIALISMO



 Há pessoas que têm uma filosofia de vida, mas não têm uma religião e nem acreditam emDeus. São ateias. Entre essas filosofias de via, evidenciaremos neste tópico, e em grandeslinhas, o humanismo absoluto e o materialismo. São formas de compreender a realidade quese traduzem em determinadas atitudes para a humanidade e em valores éticos.De maneira bem ampla, o eixo que sustenta o humanismo é o indivíduo é o o eixo que sustenta o materialismo são as ciências naturais. Nos próximos tópicos, serão estudadosalguns autores, vindos dos campos da filosofia, da psicanálise e da economia política, quelevaram o humanismo absoluto às suas últimas conseqüências. Mas neste, de cunhointrodutório, vamos nos deter no significado do humanismo e do materialismo.

O humanismo

 A palavra humanismo deriva de humano. Podemos definir um humanismo como aquele quedá maior importância aos seres humanos, à vida humana e à dignidade humana. O humanismoenfatiza a liberdade do indivíduo, sua razão, suas oportunidades e seus direitos ( HELLERN;NOTAKER;GAARDER, 1989, p. 227).

Breve histórico do humanismo

 As raízes históricas do humanismo são antigas. Períodos históricos como a Antiguidade, ORenascimento e o Iluminismo são particularmente marcados por essa forma de pensar. Masapenas no século XIX o humanismo rompeu com as raízes religiosas.Os humanistas da Antiguidade- Sócrates (399 a.C.) e a escola filosófica do estoicismo (150a.C.200 d.C.) focalizaram os seres humanos, e não mais a especulação filosófica sobre a origemdo mundo e os elementos que o formam: indicaram a razão como fundamento e guia de todapercepção (Sócrates); e acretitavam que há uma lei natural  que se aplica a todos os sereshumanos (estóicos).O humanismo da Renascença (meados do século XIV)pode ser personificado em Leonardo daVinci. Apaixonado estudioso da natureza e de todos os processos naturais. Da Vinci fezexperiências científicas e foi inventor. Acima de tudo, interessou-se pelo ser humano, tantocomo espécie quanto como indivíduo- a Mona Lisa, por exemplo, retrata uma mulher cheia decaráter e personalidade. O Humanismo renascentista instaurou o método experimental comobase para a ciência e trouxe uma nova atitude para com a humanidade, com a redescoberta dovalor do ser humano como algo grandioso e belo.O iluminismo, cuja expressão máxima é Voltaire (1694-17780), trouxe uma crença inabalávelno triunfo do esclarecimento e da razão. Pessoalmente, Voltaire não era ateu. Lutou, noentanto, contra a crença dogmática em Deus e contra a opressão das autoridades eclesiásticas.
 

A separação entre o humanismo cristão e o humanismo profano ou absoluto

 A grande maioria dos humanistas da Renascença era cristã por conviccção. Mas, a partir doséculo XIX, com o biólogo Charles Darwin e sua teoria da evolução, há uma ruptura dohumanismo com o cristianismo, tendência já presente no Renascimento. O humanismoprofano ou absoluto se separa do humanismo cristão.No humanismo de raiz cristã, a razão e a capacidade humana de percepção religiosa sãojustamente a fonte da dignidade humana. Para o humanismo absoluto, ao contrário, há umaforte confiança na razão e na experiência humanas. Embora as faculdades humanas sejamlimitadas,
o ser humano deve confiar em si mesmo e só deve depender de si mesmo e de suaspróprias capacidades. Não deve transformar suas idéias sobre o desconhecido em princípiosreligiosos.Utilizando apenas sua razão ou sua experiência, o ser humano não pode afirmar que Deusexiste. Mas também não pode dizer com certeza que Deus não existe. Por essa razão, ohumanista muitas vezes define-se como agnóstico. E, porque vive como se Deus não existisse enega a realidade sobrenatural, assume o ponto de vista ateu.

Visão humanista do ser humano e ética

 A atitude para com a humanidade é positiva e otimista, o ser humano ser de liberdade edignidade, de igual valor. A razão humana proporciona a diferença entre o certo e o errado. Aética humanista caracteriza-se pelo princípio da reciprocidade, pelo respeito à dignidade einviolabilidade do indivíduo. É do Iluminismo que nascem as bases para a Declaração doDireitos Humanos da ONU , em 1948.

O materialismo

 Devemos fazer uma distinção entre materialismo filosófico e materialismo ético. Omaterialismo filosófico é a  convicção de que todos os fenômenos do mundo podem ser atribuídos a condições físicas. Não háforças espirituais agindo independentemente das leis da física. A realidade é composta unicamente dematéria,ou, em outras palavras, natureza (HELLERN; NOTAKER; GAARDER,1989, P. 240O materialismo ético é uma visão da vida, ou uma atitude perante a vida que dá importância aosbenefícios materiais e ao prazer físico( HELLERN;NOTAKER; GAARDER, P.240)

Breve histórico do materialismo

 O materialismo também nasce na Antiguidade, com Demócrito (atomismo) e Epicuro(materialismo ético). Os séculos XVI e XVIII vêem o desenvolvimento de um materialismo detipo mecanicista: o universo está sujeito a constantes imutáveis, ou a uma mecânica ( IsaacNewton, 1643-1727). Também o ser humano seria como uma máquina. Segundo essaconcepção, o cérebro seria um músculo para pensar, como a perna tem músculos para andar.No século XIX, o materialismo é eclipsado por uma visão naturalista da vida. Nesse caso, foifundamental o trabalho do biólogo Charles Darwin, que ofereceu uma explicação naturalista coerente sobre a evolução da vida na Terra. Ideias naturalistas passaram ao terreno social epsicanalítico.Exemplos são o pensamento de Nietzsche e Freud. Para Nietzsche, o homemfraco deve ceder lugar ao super-homem, ou seja, para aqueles que se superam comoindivíduos. Para Freud, a vida mental do ser humano é dominada pelo principio sexual.

A compreensão materialista da realidade

 O materialismo tem uma visão ateísta da realidade. A chave para compreensão do mundo é opróprio mundo, não os conceitos produzidos. O conhecimento do mundo é obtido por meio daexperiência e da percepção sensorial  é dessa forma, empírico. A idéia de Deus deve serrejeitada, pois não tem fundamento na experiência (compreendida como experimento).Muitos cristãos e humanistas compartilham dessa visão científica do mundo, assumindo opensamento da astronomia e da biologia modernas sobre o início do universo e da vida. O quediferencia os materialistas é o tipo de criação religiosa. Para eles, tudo o que se pode afirmarcom relação à Terra e ao universo é o que a ciência afirma. A visão materialista sobre o ser humano  Não há diferenças substanciais entre o ser humano e os outros organismos vivos, pois as leisda química regem todas as formas de vida. E se o ser humano, no século XVIII, pôde sercomparado a uma máquina, o cérebro humano pode hoje ser comparado, pelos materialistas,a um computador exremamente complexo, mas totalmente regulado pelas leis bioquímicasconstantes no mundo natural.

O materialismo e a ética

 Do ponto de vista ético. O meterialismo filosófico não leva necessariamente ao materialismoético, tal qual foi definido. Assim, não há nenhuma contradição entre uma visão materialista ea caridade ou a consideração da dignidade humana. Mas não encontramos na filosofiamaterialista conceitos como a sacralidade da vida ou a sua inviolabilidade. Assim, entrematerialistas é mais fácil encontrar os que não hesitam na prática do aborto, da eutanásia, detransplantes ou de modernas pesquisas médicas, como experiências com material genéticohumano. Os valores, para essa filosofia, são criação da sociedade, variando de uma sociedadepara outra, ou de uma cultura para outra, determinados pela busca da sobrevivência naseleção natural. Configura-se, assim, em um relativismo moral

POSITIVISMO

Auguste Comte, positivismo
 Auguste Comte: um dos principais representantes do pensamento positivista

Características Gerais do Positivismo

Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo, que ocupa, mais ou menos, a segunda metade do mesmo século, espalhado em todo o mundo civilizado. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo, o formalismo, o idealismo, exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. Entretanto, o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral, defendendo, mais ou menos, o absoluto do fenômeno. "O fato é divino", dizia Ardigò. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação, uma unificação da experiência mediante a razão; o segundo, ao contrário, quer limitar-se à experiência imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo. Daí a sua pobreza filosófica, mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência - através da história e da ciência - com respeito ao idealismo, que alterava a experiência, a ciência e a história. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista, compreende-se porque elas são fecundas no campo prático, técnico, aplicado.
Além de ser uma reação contra o idealismo, o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais, particularmente das biológicas e fisiológicas, do século XIX. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia, como resolvedora do problema do mundo e da vida, com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. Enfim, o positivismo teve impulso, graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais, que dominaram o mesmo século XIX. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica, produtora de bens materiais, é natural se procure uma base filosófica positiva, naturalista, materialista, para as ideologias econômico-sociais.
Gnosiologicamente, o positivismo admite, como fonte única de conhecimento e critério de verdade, a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis. Nenhuma metafísica, portanto, como interpretação, justificação transcendente ou imanente, da experiência. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. A lei única e suprema, que domina o mundo concebido positivisticamente, é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista, como resulta das ciências naturais.
Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias, que florescem no seio do positivismo. E delas dependem, mais ou menos, também os sistemas político-econômico-sociais, florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo. Na democracia moderna - que é a concepção política, em que a soberania é atribuída ao povo, à massa - a vontade popular se manifesta através do número, da quantidade, da enumeração material dos votos (sufrágio universal). O liberalismo, que sustenta a liberdade completa do indivíduo - enquanto não lesar a liberdade alheia - sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica, do conflito material das forças econômicas. Para o socialismo, enfim, o centro da vida humana está na atividade econômica, produtora de bens materiais, e a história da humanidade é acionada por interesses materiais, utilitários, econômicos (materialismo histórico), e não por interesses espirituais, morais e religiosos.
O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo, ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII, também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz, substancialmente, o conhecimento humano ao conhecimento sensível, a metafísica à ciência, o espírito à natureza, com as relativas conseqüências práticas. Diferencia-se, porém, desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a-ser, de evolução, considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos, isto é, de todos os fatos humanos e naturais. Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX, com esta diferença, entretanto, que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional, teológico, ao passo que o positivismo o concebe como evolução, por causas. Através de um conflito mecânico de seres e de forças, mediante a luta pela existência, determina-se uma seleção natural, uma eliminação do organismo mais imperfeito, sobrevivendo o mais perfeito. Daí acreditar o positismo firmemente no progresso - como nele já acreditava o idealismo. Trata-se, porém, de um progresso concebido naturalisticamente, quer nos meios quer no fim, para o bem-estar material.
Mas, como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo, igualmente, no âmbito do positivismo, a única realidade existente, o cognoscível, é a realidade física, o que se pode atingir cientificamente. Portanto, nada de metafísica e filosofia, nada de espírito e valores espirituais. No entanto, atinge a ciência fielmente a sua realidade, que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência, ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e, involuntariamente, discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista, ideal e ídolo do positivismo, para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas, que será uma revisão e uma crítica do positivismo.
Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo, pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa, de crítica à ciência e ao positivismo; outra positiva, de reconstrução filosófica, em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas.

Augusto Comte - Vida e Obras

Estudante da Politécnica aos 16 anos, Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e, depois, em 1837, examinador de vestibular. Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. Apesar de seus reiterados pedidos, não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica, nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France, que quisera criar em benefício próprio. A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. Em 1817, ele conhece H. de Saint-Simon: O Organizador, o Sistema Industrial, e concebe, a partir daí, a criação de uma ciência social e de uma política científica. Já de posse, desde 1826, das grandes linhas de seu sistema, Comte abre em sua casa, rua do Faubourg Montmartre, um Curso de filosofia positiva - rapidamente interrompido por uma depressão nervosa - (que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). Retoma o ensino em 1829. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. Desde 1831 Comte abrirá, numa sala da prefeitura do 3.° distrito, um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris", curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo.
É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Trata-se da irmã de um de seus alunos, Clotilde de Vaux, esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). Na primavera de 1845, nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura, mas atual e eterna". Clotilde oferece-lhe sua amizade. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. Comte sente então sua razão vacilar, mas entrega-se corajosamente ao trabalho. Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história), forja divisas "Ordem e Progresso", "Viver para o próximo"; "O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim", funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no Brasil). Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre-Dame como a única religião real e completas".
Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina, notadamente seu discípulo Littré, que em 1851 abandona a sociedade positivista. Littré - autor do célebre Dicionário, divulgador do positivismo nos artigos do Nacional - aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político-religioso, inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde.
Todavia, mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom, é certo que Comte, já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822), sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e nas fundação de uma nova religião. Littré podia sem dúvida, em nome de suas próprias concepções, "separar Comte dele mesmo". Mas o historiador, que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal, pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte.(¹)
(¹) Comte, afirmando vigorosamente a unidade de seu sistema, reconhece que houve duas carreiras em sua vida. Na primeira, diz ele sem falsa modéstia, ele foi Aristóteles e na segunda será São Paulo.

A Lei dos Três Estados

A filosofia da história, tal como a concebe Comte, é de certa forma tão idealista quanto a de Hegel. Para Comte "as idéias conduzem e transformam o mundo" e é a evolução da inteligência humana que comanda o desenrolar da história. Como Hegel ainda, Comte pensa que nós não podemos conhecer o espírito humano senão através de obras sucessivas - obras de civilização e história dos conhecimentos e das ciências - que a inteligência alternadamente produziu no curso da história. O espírito não poderia conhecer-se interiormente (Comte rejeita a introspecção, porque o sujeito do conhecimento confunde-se com o objeto estudado e porque pode descobrir-se apenas através das obras da cultura e particularmente através da história das ciências. A vida espiritual autêntica não é uma vida interior, é a atividade científica que se desenvolve através do tempo. Assim como diz muito bem Gouhier, a filosofia comtista da história é "uma filosofia da história do espírito através das ciências".
O espírito humano, em seu esforço para explicar o universo, passa sucessivamente por três estados:
a) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade, por exemplo, será explicada por um capricho do deus dos ventos, Eolo). Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo.
b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio", por longo tempo atribuído à natureza. A tempestade, por exemplo, será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²). Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá). O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. Desse modo, os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem - reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores, mas sem conteúdo real.
c) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam, em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite, com efeito, quando um fenômeno é dado, prever o fenômeno que se seguirá e, eventualmente agindo sobre o primeiro, transformar o segundo. ("Ciência donde previsão, previsão donde ação").
Acrescentemos que para Augusto Comte a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie, ela o é também para o desenvolvimento de cada indivíduo. A criança dá explicações teológicas, o adolescente é metafísico, ao passo que o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas.
(²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital", assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma".

A Classificação das Ciências

As ciências, no decurso da história, não se tornaram "positivas" na mesma data, mas numa certa ordem de sucessão que corresponde à célebre classificação: matemáticas, astronomia, física, química, biologia, sociologia.
Das matemáticas à sociologia a ordem é a do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais concreto e de uma proximidade crescente em relação ao homem.
Esta ordem corresponde à ordem histórica da aparição das ciências positivas. As matemáticas (que com os pitagóricos eram ainda, em parte, uma metafísica e uma mística do número), constituem-se, entretanto, desde a antiguidade, numa disciplina positiva (elas são, aliás, para Comte, antes um instrumento de todas as ciências do que uma ciência particular). A astronomia descobre bem cedo suas primeiras leis positivas, a física espera o século XVII para, com Galileu e Newton, tornar-se positiva. A oportunidade da química vem no século XVIII (Lavoisier). A biologia se torna uma disciplina positiva no século XIX. O próprio Comte acredita coroar o edifício científico criando a sociologia.
As ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstratas. De saída, os objetos das ciências dependem uns dos outros. Os seres vivos estão submetidos não só às leis particulares da vida, como também às leis mais gerais, físicas e químicas de todos os corpos (vivos ou inertes). Um ser vivo está submetido, como a matéria inerte, às leis da gravidade. Além disso, os métodos de uma ciência supõem que já sejam conhecidos os das ciências que a precederam na classificação. É preciso ser matemático para saber física. Um biólogo deve conhecer matemática, física e química. Entretanto, se as ciências mais complexas dependem das mais simples, não poderíamos deduzi-las de, nem reduzi-las a estas últimas. Os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos, mas a biologia não é uma química orgânica. Comte afirma energicamente que cada etapa da classificação introduz um campo novo, irredutível aos precedentes. Ele se opõe ao materialismo que é "a explicação do superior pelo inferior".
Nota-se, enfim, que a psicologia não figura nesta classificação. Para Comte o objeto da psicologia pode ser repartido sem prejuízo entre a biologia e a sociologia.

A Humanidade

A última das ciências que Comte chamara primeiramente física social, e para a qual depois inventou o nome de sociologia reveste-se de importância capital. Um dos melhores comentadores de Comte, Levy-Bruhl, tem razão de sublinhar: "A criação da ciência social é o momento decisivo na filosofia de Comte. Dela tudo parte, a ela tudo se reduz". Nela irão se reunir o positivismo religioso, a história do conhecimento e a política positiva. É refletindo sobre a sociologia positiva que compreenderemos que as duas doutrinas de Comte são apenas uma. Enfim, e sobretudo, é a criação da sociologia que, permitindo aquilo que Kant denominava uma "totalização da experiência", nos faz compreender o que é, para Comte, fundamentalmente, a própria filosofia.
Comte, ao criar a sociologia, a sexta ciência fundamental, a mais concreta e complexa, cujo objeto é a "humanidade", encerra as conquistas do espírito positivo: como diz excelentemente Gouhier - em sua admirável introdução ao Textos Escolhidos de Comte, publicados por Aubier - "Quando a última ciência chega ao último estado, isso não significa apenas o aparecimento de uma nova ciência. O nascimento da sociologia tem uma importância que não podia ter o da biologia ou o da física: ele representa o fato de que não mais existe no universo qualquer refúgio para os deuses e suas imagens metafísicas. Como cada ciência depende da precedente sem a ela se reduzir, o sociólogo deve conhecer o essencial de todas as disciplinas que precedem a sua. Sua especialização própria se confunde, pois - diferentemente do que se passa para os outros sábios - com a totalidade do saber. Significa dizer que o sociólogo é idêntico ao próprio filósofo, "especialista em generalidades", que envolve com um olhar enciclopédico toda a evolução da inteligência, desde o estado teológico ao estado positivo, em todas as disciplinas do conhecimento. Comte repudia a metafísica, mas não rejeita a filosofia concebida como interpretação totalizante da história e, por isto, identificação com a sociologia, a ciência última que supõe todas as outras, a ciência da humanidade, a ciência, poder-se-ia dizer em termos hegelianos, do "universal concreto".
O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica: há na humanidade uma dimensão suplementar - a história - o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). O homem, diz-nos Comte, "é um animal que tem uma história". As abelhas não têm história. Aquelas de que fala Virgílio nas Geórgicas comportavam-se exatamente como as de hoje em dia. A espécie das abelhas é apenas a sucessão de gerações que repetem suas condutas instintivas: não há, pois, num sentido estrito, sociedades animais, ou ao menos a essência social dos animais reduz-se à natureza biológica. Somente o homem tem uma história porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. Ele cria línguas, instrumentos que transmitem este patrimônio pela palavra, e, nos últimos milênios, pela escrita às gerações seguintes que, por sua vez, exercem suas faculdades de invenção apenas dentro do quadro do que elas receberam. As duas idéias de tradição e de progresso, longe de se excluírem, se completam. Como diz Comte, Gutemberg ainda imprime todos os livros do mundo, e o inventor do arado trabalha, invisível, ao lado do lavrador. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e "a humanidade compõe-se mais de mortos que de vivos".
Comte distingue a sociologia estática da sociologia dinâmica. A primeira estuda as condições gerais de toda a vida social, considerada em si mesma, em qualquer tempo e lugar. Três instituições sempre são necessárias para fazer com que o altruísmo predomine sobre o egoísmo (condição de vida social). A propriedade (que permite ao homem produzir mais do que para as suas necessidades egoístas imediatas, isto é, fazer provisões, acumular um capital que será útil a todos), a família (educadora insubstituível para o sentimento de solidariedade e respeito às tradições), a linguagem (que permite a comunicação entre os indivíduos e, sob a forma de escrita, a constituição de um capital intelectual, exatamente como a propriedade cria um capital material).
A sociologia dinâmica estuda as condições da evolução da sociedade: do estado teológico ao estado positivo na ordem intelectual, do estado militar ao industrial na ordem prática - do estado de egoísmo ao de altruísmo na ordem afetiva. A ciência que prepara a união de todos os espíritos concluirá a obra de unidade (que a Igreja católica havia parcialmente realizado na Idade Média) e tornará o altruísmo universal, "planetário". A sociedade positiva terá, exatametne como a sociedade cristã da Idade Média, seu poder temporal (os industriais e os banqueiros) e seu pdoer espiritual (³) (os sábios, principalemtne os sociólogos, que terão, à sua testa, o papa positivista, o Grão-Sacerdote da Humanidade, isto é, o próprio Augusto Comte).
Vê-se que é sobre a sociologia que vem articular a mudança de perspectiva, a mutação que faz do filósofo um profeta. A sociologia, cuja aparição dependeu de todas as outras ciências tornadas positivas, transforma-se-á na política que guiará as outras ciências, "regenerando, assim, por sua vez, todos os elementos que concorreram para sua própria formação". Assim é que, em nome da "humanidade", a sociologia regerá todas as ciências, proibindo, por exemplo, as pesquisas inúteis. (Para Comte, o astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua, que estão muito próximos de n'so, para ter uma influência sobre a terra e sobre a humanidade e interditar-se aos estudos politicamente estéreis dos corpos celestes mais afastados!!) Compreende-se que esta "síntese subjetiva", integrando-se inteiramente no sistema de Comte, tenha desencorajado os racionalistas que de saída viram no positivismo uma apologia do espírito científico!
A religião positiva substitui o Deus das religiões reveladas pela própria humanidade, considerada como Grande-Ser. Este Ser do qual fazemos parte nos ultrapassa entretanto - pelo gênio de seus grandes homens, de seus sábios aos quais devemos prestar culto após a morte (esta sobrevivência na veneração de nossa memória chama-se "imortalidade subjetiva"). A terra e o ar - meio onde vive a humanidade - podem, por isso mesmo, ser objeto de culto. A terra chamar-se-á o "Grande-Fetiche". A religião da humanidade, pois, transpõe - ainda mais que não as repudia - as idéias e até a linguagem da crenças anteriores. Filósofo do progresso, Comte é também o filósofo da ordem. Herdeiro da Revolução, ele é, ao mesmo tempo, conservador e admirador da bela unidade dos espíritos da Idade Média. Compreende-se que ele tenha encontrado discípulos tanto nos pensadores "de direita" como nos "de esquerda".
(³) Comte rejeita como metafísica a doutrina dos direitos do homem e da liberdade. Assim como "não há liberdade de consciência em astronomia", assim uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões. Aqueles que não compreenderem terão que se submeter cegamente (esta submissão será o equivalente da fé na religião positivista).

MATERIALISMO DIALÉTICO

IDEALISMO E MATERIALISMO

1. A LUTA ENTRE DOIS EXÉRCITOS EM FILOSOFIA

Toda a história da filosofia é  a história da luta e do desenvolvimento de duas escolas filosóficas opostas entre si: o idealismo e o materialismo. Todas as correntes e escolas filosóficas são manifestações destas duas escolas fundamentais.
Todas as teorias filosóficas têm sido criadas por homens pertencentes a uma classe social específica. As idéias destes homens têm sido historicamente determinadas por uma existência social específica. Todas as doutrinas filosóficas expressam as necessidades de uma classe social específica e refletem o nível de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade e a etapa histórica na compreensão da natureza por parte do homem...
As origens sociais do idealismo e do materialismo se encontram numa estrutura social marcada por contradições de classe. A primeira aparição do idealismo foi produto da ignorância e superstição do homem selvagem e primitivo.
Logo, como o desenvolvimento das forças produtivas, e o conseguinte desenvolvimento do conhecimento científico, haveria de concluir que o idealismo deveria morrer pouco a pouco e ser substituído pelo materialismo.
E, no entanto, desde épocas antigas até o presente, o idealismo não só não morreu pouco a pouco, mas sim, pelo contrário, se desenvolveu e levou a cabo uma luta pela supremacia com o materialismo da qual nenhum saiu vitorioso. A razão disto se encontra na divisão da sociedade em classes. De um lado, para seu próprio benefício, a classe opressora tem que desenvolver e reforçar suas doutrinas idealistas. De outro lado, as classes oprimidas, também para seu próprio benefício, têm que desenvolver e reforçar suas doutrinas materialistas. Tanto o idealismo como o materialismo são armas na luta de classes, e a luta entre o idealismo e o materialismo não pode desaparecer enquanto continuem existindo as classes.
O idealismo, no processo de seu desenvolvimento histórico, representa a ideologia das classes exploradoras e serve a propósitos reacionários. O materialismo, por outro lado, é a concepção do mundo da classe revolucionária; em uma sociedade de classes, surge e se desenvolve no meio de incessante luta contra a filosofia reacionária do idealismo. Por conseguinte, a história da luta entre o idealismo e o materialismo em filosofia reflete a luta de interesses entre a classe reacionária e a classe revolucionária ... Uma tendência filosófica dada é em última instância uma manifestação em um aspecto particular da política da classe social a que pertencem esses filósofos.
O traço distintivo da filosofia marxista- isto é, do materialismo dialético- é seu esforço por explicar claramente o caráter de classe de toda a consciência social (incluindo a filosofia). Declara publicamente uma acérrima luta entre seu próprio caráter proletário e a filosofia idealista da classe endinheirada. Além disso, subordina suas próprias tarefas especiais e independentes a tarefas gerais tais como derrubar o capitalismo, organizar e construir uma ditadura proletária, e edificar uma sociedade socialista.
2. A DIFERENÇA ENTRE IDEALISMO E MATERIALISMO
Onde reside a diferença básica entre o idealismo e o materialismo? Reside nas respostas antagônicas dadas pelos filósofos à questão fundamental em filosofia, a da relação entre espírito e matéria (a da relação entre consciência e existência). O idealismo considera o espírito (a consciência, os conceitos, o sujeito) como a fonte de tudo o que existe no mundo, e a matéria (a natureza e a sociedade, o objeto) como secundária e subordinada. O materialismo reconhece a existência independente da matéria separada do espírito e considera o espírito como secundário e subordinado...

3. A FONTE DO SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO IDEALISMO

O idealismo vê a matéria como produto do espírito. Isto equivale a pôr o mundo real de pés para cima. Onde está a fonte do surgimento e desenvolvimento de tal filosofia?
Como mencionei anteriormente, a primeira manifestação de idealismo foi produto da superstição e ignorância do homem primitivo, selvagem. Mas com o desenvolvimento da produção, a separação entre trabalho manual e trabalho intelectual foi responsável por colocar o idealismo como a primeira entre as correntes do pensamento filosófico. Com o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, fez sua aparição a divisão social do trabalho; o posterior desenvolvimento da divisão do trabalho presenciou o surgimento de pessoas dedicadas por completo e exclusivamente ao trabalho intelectual. Mas quando as forças produtivas são ainda débeis, a divisão entre os dois não alcança a etapa de separação completa. Só depois que aparecem as classes e a propriedade privada, e a exploração se converte no fundamento da existência da classe dominante, é que ocorrem grande mudanças. O trabalho intelectual se converte então em privilégio exclusivo da classe dominante, enquanto que o trabalho manual se converte em destino das classes oprimidas. A classe dominante começa a analisar a relação entre ela própria e as classes oprimidas de forma invertida: Não são os trabalhadores os que lhes proporcionam os meios de subsistência, mas sim,ao contrário, são eles que proporcionam aos trabalhadores estes meios. Daí que desprezam o trabalho manual e desenvolvem concepções idealistas. Eliminar a diferenciação entre trabalho manual e trabalho intelectual é uma das condições principais para eliminar a filosofia idealista.
A raiz social que possibilita o desenvolvimento da filosofia idealista reside principalmente no fato de que este tipo de consciência filosófica é a manifestação dos interesses da classe exploradora... O declive final do idealismo virá com a eliminação das classes, com o estabelecimento de uma sociedade comunista.
A fonte que lhe permite se desenvolver e se aprofundar e que lhe dá forças para lutar contra o materialismo deve ser buscada no processo do conhecimento humano.        Quando os homens pensam, devem utilizar conceitos. Isto pode causar facilmente que nosso conhecimento se divida em dois aspectos: realidade, que é de caráter individual e particular; e conceitos, que são de caráter geral... Na natureza das coisas, o particular e o geral estão inseparavelmente ligados; uma vez desunidos, se afastam da verdade objetiva...
Separar o geral do particular, e ver o geral como realidade objetiva e o particular simplesmente como a forma na qual existe o geral, este é o método adotado por todos os idealistas. Todos os idealistas põem a consciência, o espírito, ou os conceitos no lugar da realidade objetiva, que existe independentemente da consciência humana... Eles não podem apontar a verdade materialista segundo a qual a consciência está limitada pela matéria, mas sim crêem que somente a consciência é ativa, enquanto a matéria é só uma entidade complexa inerte. Incitados, além disso, por sua própria natureza de classe, os idealistas então utilizam todos os métodos para exagerar a atividade da consciência, desenvolvendo unilateralmente este aspecto...
O idealismo em economia exagera imensamente um aspecto no essencial do intercâmbio, elevando a lei da oferta e da procura ao status de lei fundamental do capitalismo... Os historiadores idealistas consideram que os heróis são os que fazem a história. Os políticos idealistas consideram a política como onipotente. Os líderes militares idealistas praticam os métodos de combate desesperado. Os revolucionários idealistas propugnam pelo blanquismo. Os reacionários dizem que a única maneira de reviver nossa nação é restaurarando a velha moralidade. Tudo isto é produto de exagerar imensamente os fatores subjetivos...
O materialismo pré-marxista (materialismo mecanicista) não destaca o processo de pensamento no desenvolvimento do conhecimento, mas sim considera o pensamento como o objeto de ação, como o espelho que reflete a natureza... Somente o materialismo dialético mostra corretamente o papel ativo do pensamento, e ao mesmo tempo destaca a limitação imposta ao pensamento pela matéria. Sublinha que o pensamento surge da prática social e ao mesmo tempo molda ativamente a prática. Só este tipo de teoria dialética da unidade do conhecimento e da ação pode triunfar completamente sobre o idealismo.

4. A ORIGEM E O DESENVOLVIMENTO DO MATERIALISMO

O reconhecimento de que a matéria existe, independentemente e à parte da consciência, no mundo exterior, é a base do materialismo. O homem criou esta base através da prática...
Obrigado a submeter-se a forças naturais, e capaz de utilizar somente ferramentas simples, o homem primitivo não podia explicar os fenômenos que lhe rodeavam e, por conseqüência, buscou ajuda nos espíritos. Esta é a origem da religião e do idealismo.
Mas no processo a longo prazo da produção,o homem entrou em contato com a natureza circundante,atuou sobre ela,transformou a mesma e criou coisas para comer,para viver e para utilizar,e adaptou a natureza aos interesses do homem e deu fundamento para que o ser humano acreditasse que a matéria tinha uma existência objetiva.
Na existência social da humanidade, surgem relações e influências recíprocas entre indivíduos. Numa sociedade de classes existe, além disso, uma luta de classes. As classes oprimidas consideram as circunstâncias e avaliam sua força, e logo fazem seus planos. Quando obtêm êxito na luta, os membros desta classe estão convencidos de que suas concepções não são produto da fantasia, mas sim reflexo do mundo material objetivamente existente. Uma vez que a classe oprimida fracassa quando adota planos errôneos e têm êxito corrigindo seus planos, aprende a entender que pode conseguir seu propósito somente quando seus planos descansam na compreensão correta da natureza material do mundo objetivo e no fato de que o mundo objetivo está governado por leis.
A história da ciência fornece ao homem provas do caráter material do mundo e do fato de que este está  governado por leis, e lhe ajuda a ver o vão das ilusões da religião e do idealismo, lhe ajudando a chegar a conclusões materialistas.
Em resumo, a história da prática do homem abarca a história de sua luta com a natureza, a história da luta de classes, e a história da ciência. Devido à necessidade de viver e lutar, os homens pensaram sobre a realidade da matéria e suas leis, demonstraram o quanto correto é o materialismo, e encontraram a ferramenta intelectual necessária para sua luta: a filosofia materialista. Quanto maior o nível em que se desenvolve a produção social, maior é o desenvolvimento da luta de classes, e quanto mais o conhecimento científico revela os "segredos" da natureza, maior é o desenvolvimento e a consolidação da filosofia materialista. Assim o homem pode libertar-se gradualmente da esmagadora opressão dual da natureza e da sociedade.

CAPITULO II

MATERIALISMO DIALÉTICO


1. O MATERIALISMO DIALÉTICO É A ARMA REVOLUCIONÁRIA DO PROLETARIADO

O proletariado chinês, tendo assumido no atual momento a tarefa histórica da revolução democrático-burguesa, tem que utilizar o materialismo dialético como sua arma intelectual... O estudo do materialismo dialético é ainda mais indispensável para os quadros que dirigem o movimento revolucionário, devido às duas errôneas teorias e métodos de trabalho, o subjetivismo e o mecanicismo, que freqüentemente aparecem entre os quadros, e como resultado fazem com freqüência que os militantes andem contra o marxismo, o que leva o movimento revolucionário pelo caminho errado. Se quisermos evitar tais deficiências, a única solução está no estudo e na compreensão conscientes do materialismo dialético, para armar de novo nosso cérebro.

2. A RELAÇÃO ENTRE A VELHA HERANÇA FILOSÓFICA E O MATERIALISMO DIALÉTICO

Após o Movimento de 4 de Maio de 1919, como conseqüência da aparição consciente do proletariado chinês na cena política, e a elevação do nível científico do país, surgiu e se desenvolveu na China um movimento filosófico marxista. No seu primeiro período,no entanto,o nível de compreensão da dialética materialista dentro da corrente materialista de pensamento era muito mais débil, e o materialismo mecanicista influenciado pela burguesia, assim como o subjetivismo de Deborin, eram seus principais componentes. Após a derrota da revolução ,em 1927, avançou o nível de compreensão do marxismo e do leninismo, e se desenvolveu gradualmente o pensamento dialético materialista.
Apenas recentemente, devido ao rigor da crise nacional e social, e também devido à influência do movimento para liquidar os desvios na filosofia soviética, se desenvolveu nos círculos intelectuais chineses um amplo movimento de dialética materialista. Devido ao atraso do desenvolvimento social da China, as correntes filosóficas materialistas dialéticas que se desenvolvem no país hoje não foram o resultado da tomada e reforma de nosso próprio legado filosófico,mas sim do estudo do marxismo-leninismo.
Entretanto, se queremos garantir que o pensamento materialista dialético penetre profundamente na China e continue se desenvolvendo, e dê, além disso, firme direção à revolução chinesa e a conduza à vitória final no futuro, então devemos lutar contra todas as velhas e podres teorias filosóficas existentes na China, na frente ideológica em todo o país, levantar a bandeira da crítica e,desta forma, liquidar a herança filosófica da antiga China. Só assim podemos conquistar nossa meta.

3. A UNIDADE DE VISÃO DO MUNDO E METODOLOGIA NO MATERIALISMO DIALECTICO

O materialismo dialético é a concepção do mundo do proletariado. Ao mesmo tempo, é o seu método para obter conhecimento do mundo circundante, e seu método de ação revolucionária. Constitui a unidade de concepção do mundo e ideologia...

4. A QUESTÃO DO OBJETO DA DIALÉTICA MATERIALISTA -- PARA QUÊ SERVE ESTUDAR A DIALÉTICA MATERIALISTA?

Marx, Engels e Lênin definiram a dialética materialista como a teoria do desenvolvimento...
Sob o título de objeto da filosofia temos que resolver, no entanto, outro problema, a saber, o problema da unidade da dialética, da lógica e da epistemologia...
A dialética materialista é a única epistemologia científica, e é também a única lógica científica. A dialética materialista estuda a origem e o desenvolvimento de nosso conhecimento do mundo exterior.
Estuda a transição do não saber ao saber e do conhecimento incompleto ao conhecimento mais completo; estuda como as leis do desenvolvimento da natureza e da sociedade se refletem diariamente de maneira mais profunda e mais ampla na mente da humanidade. Esta é precisamente a unidade da dialética materialista com a epistemologia...
A essência do conceito de desenvolvimento consiste em considerar as leis como o reflexo em nossas mentes e o transplantar nelas (além disso, adicionalmente elaboradas em nossas mentes) das manifestações do desenvolvimento da matéria...
Só utilizando o materialismo para chegar a uma solução do problema das relações entre existência e pensamento [entre ser e pensar], só tomando posição pela teoria do reflexo, se pode chegar a uma solução cabal dos problemas da dialética, da lógica e da epistemologia...

5. SOBRE A MATÉRIA

A primeira condição para pertencer ao campo materialista consiste em reconhecer a existência independente do mundo material, à parte da consciência humana - o fato de que existia antes da aparição da humanidade, e continua existindo desde a aparição da própria humanidade, independente e fora da consciência humana. Reconhecer este ponto é uma premissa fundamental de toda investigação científica.
Como demonstraremos isto? As provas são muito numerosas. A humanidade está constantemente em contato com o mundo externo e, além disso, tem que lutar ferozmente contra a pressão e resistência do mundo exterior (a natureza e a sociedade). Além do mais, não só temos que superar, mas podemos superar esta pressão e resistência. Todas estas circunstâncias reais da prática social da humanidade, como se manifestam no desenvolvimento histórico da sociedade humana, são a melhor prova [da existência do mundo material]. A China não duvida da existência objetiva do imperialismo japonês que invadiu nosso país, nem duvida da existência do povo chinês mesmo. Os alunos do Instituto Político-militar Anti-Japonês tampouco duvidam da existência objetiva deste instituto e dos próprios alunos mesmo...
Se considerarmos essa coisa conhecida como consciência à luz do materialismo exaustivo (isto é,  à luz da dialética materialista), então o que chamamos consciência não é nada mais que uma forma de movimento da matéria, uma característica particular do cérebro material da humanidade; é essa característica particular do cérebro material a que origina que os processos materiais por fora da consciência se reflitam na consciência. Disto vemos que quando fazemos a distinção entre matéria e consciência e quando, além de contrapormos uma à outra, é só condicional expressar que tem significado somente desde o ponto de vista da epistemologia...
Numa palavra, matéria é tudo no universo. "Todo o poder pertence a Ssu-Ma-I". Nós dizemos, "Todo o poder pertence à matéria". Esta é a fonte da unidade do mundo.

6. SOBRE O MOVIMENTO (SOBRE O DESENVOLVIMENTO)

O primeiro princípio fundamental do materialismo dialético consiste em sua concepção sobre a matéria... Este princípio da unidade do mundo já foi explicado acima ao analisar a matéria.
O segundo princípio fundamental do materialismo dialético consiste em sua teoria do movimento (ou teoria do desenvolvimento). Isto significa o reconhecimento de que o movimento é a forma de existência da matéria, um atributo inerente à matéria, uma manifestação da multiplicidade da matéria. Este é o princípio de desenvolvimento do mundo. A combinação do princípio do desenvolvimento do mundo com o princípio da unidade do mundo, estabelecido acima, constitui a totalidade da concepção do materialismo dialético. O mundo não é mais que o mundo material num processo de desenvolvimento ilimitado...
A teoria materialista dialética do movimento está em oposição primeiro com todo o idealismo filosófico e com os conceitos teológicos da religião. O caráter fundamental de todo o idealismo filosófico e da teologia provêm da negação da unidade e do caráter natural do mundo; e ao imaginar que o movimento e a transformação do mundo têm lugar separado da matéria, ou tem lugar ao menos no começo separado da matéria, e é o resultado da ação do espírito, de Deus, ou de forças divinas.
O filósofo idealista alemão Hegel sustentava que o mundo atual provém do desenvolvimento da chamada "idéia do mundo". Na China, o filósofo do Livro das Mudanças, e a metafísica dos Sung y Ming, todos estabeleciam concepções idealistas do desenvolvimento do universo. O cristianismo diz que Deus criou o mundo, o budismo e todas as diversas religiões fetichistas da China atribuem o movimento e o desenvolvimento de toda uma gama de fenômenos do universo a forças espirituais.
Todas estas doutrinas que consideram o movimento separado da matéria são fundamentalmente incompatíveis com o materialismo dialético...
O materialismo dialético considera que a quietude ou o equilíbrio são simplesmente um elemento do movimento, que são simplesmente uma circunstância particular do movimento... Uma frase popular dos pensadores metafísicos da antiga China, "O céu não muda e o Caminho tampouco", corresponde a uma teoria da imobilidade do universo... Segundo suas perspectivas, o caráter básico do universo e a sociedade é eternamente inalterável. A razão pela qual eles adotaram esta atitude se encontra em primeiro lugar em suas limitações de classe. Se a classe latifundiária feudal houvesse reconhecido que o caráter básico do universo e da sociedade está submetido ao movimento e transformação, então sem dúvida alguma teriam pronunciado numa teoria uma sentença de morte contra sua própria classe.
As filosofias de todas as forças reacionárias são teorias da imobilidade. As classes revolucionárias e as massas populares perceberam, todas elas, o princípio do desenvolvimento do mundo, e por conseqüência, propugnam a transformação da sociedade e do mundo; sua filosofia é o materialismo dialético.
As causas da transformação da matéria são encontradas não na parte exterior, mas dentro dela própria. Não se devem a impulsos de forças mecânicas externas, mas à existência dentro da matéria em questão de dois componentes diferentes em sua natureza e mutuamente contraditórios que lutam entre si, dando assim um impulso ao movimento e transformação da matéria. Como resultado do descobrimento das leis de tal movimento e transformação, o materialismo dialético é capaz de estender o princípio da unidade material do mundo, entendendo-o à história da natureza e da sociedade.
Assim, não só é possível investigar o mundo considerado como matéria em perpétuo movimento, mas que o mundo pode também ser investigado como matéria em interminável movimento, de uma forma inferior a uma forma superior. Ou seja, é possível investigar o mundo como desenvolvimento e processo.
O materialismo dialético investiga a transformação do mundo como um movimento progressivo do inorgânico ao orgânico, e daí a forma superior de desenvolvimento da matéria (a sociedade).
O que estabelecemos é a teoria do movimento do mundo, ou o princípio do desenvolvimento do mundo, segundo o materialismo dialético. Esta doutrina é a essência da filosofia marxista. Se o proletariado e todos os revolucionários seguram esta arma consistentemente científica, poderão então compreender o mundo, e transformar o mundo.