Este texto apresenta uma relação entre o conceito de autonomia, como o principal objetivo a ser alcançado na formação educacional, e o conceito de auto-regulação, extraído da teoria da psicologia política de Wilhelm Reich. Auto-regulação é capacidade biológica e natural que revela nosso potencial para o desenvolvimento da autonomia. O texto mostra que, a partir dessa referencia à lei natural de funcionamento da vida no individuo, é que se pode compreender a idéia de uma organização social baseada nos fluxos da natureza humana, pois o respeito a esses fluxos é condição necessária a uma cultura que almeje reconhecer os indivíduos que a compõem. O texto apresenta o trabalho de Reich no sentido de integrar os processos biológico-naturais e sociais, tentando superar a dicotomia natureza e cultura e propor uma relação dinâmica entre individuo e sociedade.
Palavras-chave: Educação, Educação física, Autonomia, Auto-regulação, Teoria reichiana.
O principal desafio deste novo século será a construção de
comunidades ecologicamente sustentáveis, organizadas de tal modo
que suas tecnologias e instituições sociais não prejudiquem a
capacidade intrínseca da natureza sustentar a vida. Os princípios
sobre os quais se erguerão as nossas futuras instituições sociais
terão de ser coerentes com os princípios de organização que a
natureza fez evoluir para sustentar a teia da vida.
(Fritjof Capra)
comunidades ecologicamente sustentáveis, organizadas de tal modo
que suas tecnologias e instituições sociais não prejudiquem a
capacidade intrínseca da natureza sustentar a vida. Os princípios
sobre os quais se erguerão as nossas futuras instituições sociais
terão de ser coerentes com os princípios de organização que a
natureza fez evoluir para sustentar a teia da vida.
(Fritjof Capra)
Porque motivo não pode existir uma escola que deixe a criança
aprender aquilo que quer, quando quer e, ao mesmo tempo, procure
ensiná-la a respeitar os direitos das outras?
(Orson Bean) 3
Segundo Ademar Ferreira dos Santos4 (2000), uma educação auto-regulada está embasada “no sentido de que as normas e as regras que orientam as relações societárias não são injunções impostas ou importadas simplesmente do exterior, aprender aquilo que quer, quando quer e, ao mesmo tempo, procure
ensiná-la a respeitar os direitos das outras?
(Orson Bean) 3
mas normas e regras próprias que decorrem da necessidade sentida por todos de agir e interagir de uma certa maneira, de acordo com uma idéia coletivamente apropriada e partilhada do que deve ser o viver e o conviver numa escola que se pretenda constituir como um ambiente amigável e solidário de aprendizagem”. 5Auto-regulação é a capacidade biológica e natural que revela nosso potencial para o desenvolvimento da autonomia. Para Constance Kamii (1990), a essência da autonomia é fazer com que as crianças se tornem aptas a tomar decisões por si mesmas. Mas, segundo essa estudiosa, a autonomia não é o mesmo que a liberdade completa e também não é liberdade plena e absoluta. A autonomia significa levar em consideração os fatos relevantes para decidir agir da melhor forma para todos. E, para tanto é preciso ser capaz de se ter um contato com as sensações e percepções auto-reguladoras em seu organismo.
Para Wilhelm Reich, auto-regulação é sinônimo de vida. Segundo André Barreto (2000), vida é para Reich ação e auto-regulação em busca do prazer, o que se explica, segundo esse autor, à medida que o organismo é regido por leis e fluxos naturais que, se devidamente respeitados, permitem ao indivíduo a realização de suas potencialidades inatas. Se não houver esse respeito, se essas leis e fluxos forem interrompidos, produzem uma desorganização, uma “desfuncionalidade”. Isso pode ser visto na vida dos indivíduos, quando há na impossibilidade de expressão emocional, em decorrência de uma repressão sexual6, o que conduz à neurose e à irracionalidade.
Para Wilhelm Reich, segundo André Barreto (2000), somente a partir dessas descobertas referentes às leis naturais de funcionamento da vida no individuo é que podemos compreender a idéia de uma organização social baseada nos fluxos da natureza humana, pois o respeito a esses fluxos é condição necessária a uma cultura que almeje reconhecer os indivíduos que a compõem. Todo o trabalho de Reich foi no sentido de integrar os processos biológico-naturais e sociais, tentando superar a dicotomia natureza e cultura e propor uma relação dinâmica entre indivíduo e sociedade.
Segundo José Gustavo Sampaio Garcia (2006),
“a capacidade intencional de escolha e de ação é característica essencial e exclusivamente humana e está enraizada nas funções biológicas naturais. A liberdade, na ótica reichiana, é o resultado evolutivo da auto-regulação, função que está presente em todas as formas de vida fundamental ao processo do organismo vivo e que o distingue dos sistemas não-vivos. É a aptidão que o ser vivo possui para administrar suas necessidades sem interferência externa, um principio básico da própria existência da vida. Não se pode pensar em vida sem auto-regulação. A sua falta é o primeiro passo para a doença e a decomposição (Reich, 1979).Portanto, auto-regulação7 significa que um organismo saudável é um sistema regulado em si mesmo, no estado de coordenação harmônica entre processos pulsantes em todas as células e órgãos, até os movimentos respiratórios e os movimentos pulsantes no reflexo do orgasmo8. Esse é um conceito reichiano. Para Reich, biologicamente falando, o orgasmo é uma função auto-reguladora do organismo vivo. Ao estudar a função do orgasmo, Wilhelm Reich descobriu a fórmula da vida que se expressa em Tensão-Carga-Descarga-Relaxamento. É uma fórmula que se manifesta no organismo vivo e que mostra a capacidade do organismo de se auto-regular. Para Reich, a função do orgasmo é a função vida em sua força potencial para a plena realização. Sem essa capacidade o organismo padece.
Orson Bean (1973) explica sinteticamente a função do orgasmo: Os seres humanos, da mesma forma que todas as coisas vivas, a partir da ameba, possuem uma energia interna até hoje não revelada. Wilhelm Reich descobriu-a e deu-lhe o nome de energia orgônica – do radical da palavra organismo. Essa energia é, de fato, a força vital, fisicamente falando. Energia produzida pela ingestão de alimentos, fluidos e ar e diretamente absorvida pela epiderme. Bean destaca que Reich pesquisou e descobriu que a energia orgônica flui em ritmo constante através de todo o corpo, do alto da cabeça à planta dos pés, num movimento de ida e volta e, nas pessoas naturais e de perfeita saúde, pode ser sentida como uma agradável e quente sensação de saúde e bem estar. Sua eliminação se processa pela atividade, excreção, expressão emocional, pelo processo do pensamento e ao ser transformada em calor corporal, que é irradiado para o meio ambiente. Além disso, atua sobre o crescimento. Em casos normais, essa energia é produzida em proporção superior à que é eliminada. O excesso de energia é armazenado para atender a situações de emergência como, por exemplo, a luta ou o trabalho excessivo. Mas, quando não se registra qualquer emergência, a energia continua aumentando para que o organismo se desenvolva continuamente, ou venha a perecer eventualmente, a menos que exista um mecanismo qualquer que se encarregue de liberar o excesso da energia acumulada que tenha atingido determinado nível. Nos indivíduos saudáveis, esse nível se manifesta pela excitação sexual. A produção de energia cria um estado de tensão, e o método criado pela natureza para aliviá-la e regular a sua produção é o orgasmo sexual. A profunda sensação de calma que se segue ao clímax sexual realmente satisfatório é a prova da eliminação dessa tensão. Entretanto, a tensão é liberada e a energia, regulada, somente quando o indivíduo é capaz de conseguir uma satisfação sexual completa, saudável e amorosa. É inútil a experiência sexual obrigatória ou incompleta. O orgasmo deve ser absolutamente agradável e espontaneamente acompanhado pelo relaxamento total da energia orgônica não eliminada. A falta de eliminação faz-se sentir sob a forma de tensão ou desassossego. Num indivíduo saudável, a necessidade de satisfação sexual e eliminação está inteiramente baseada nesse fluxo da energia orgônica.
Portanto, com base em Reich, podemos afirmar que o organismo humano vive, pulsa. Ele funciona por si. Tem vida própria e tem mecanismos de auto-regulação que lhe preservam a vida e a homeostase (equilíbrio energético corporal). Nessa mesma perspectiva, encontramos o conceito de autopoieses do biólogo Humberto Maturana (2001), que diz que autopoieses é a característica que todo ser vivo tem de funcionar de dentro para fora. Com base nesse princípio, quando atuamos como educadores na escola, é preciso verificar se os alunos e alunas são capazes de agir com base em suas motivações e gratificações internas, sendo capazes de se auto-dirigirem. Verificar, também, se são capazes de expressar interesses genuínos e espontâneos em prol da própria vida e da vida dos seus semelhantes e de tudo o que é vivo, sem pressões internas ou externas. Ou, ao contrário, verificar se agem em prol da vida apenas quando submetidos a pressões externas heterônomas/heteroreguladoras. A auto-regulação é possibilitada por um entorno acolhedor na organização da aula e no jeito do educador se vincular e se posicionar diante dos alunos, o que significa também colocar limites, mas nunca com violência9. É uma forma de trabalhar que acredita que na vida há também uma razão instintiva, que leva os alunos e as alunas a fazerem escolhas embasadas por um saber orgânico e funcional, um saber percebido e compreendido através das sensações corporais. A idéia aqui é a de que as pessoas sabem regular sua função vital e o fazem de forma satisfatória, se não forem bloqueadas e impedidas, o que, lamentavelmente, é o mais comum de acontecer em nossa cultura educacional, desde o momento do nascimento, quando se inicia o processo de encouraçamento do ser humano provocado por uma educação compulsória, compulsiva e exclusivamente heterônoma que expressa uma pedagogia da dominação/disciplinamento, e que tem hegemonicamente dominado a cena de nossa cultura educacional, na família e na escola. Essa cultura que estamos criticando ainda acontece na maior parte do tempo para todos, sendo fundamentalmente hetero-reguladora.
A esse respeito vale mais uma vez lembrar o que diz Constance Kamii (1990):
Todos os bebês nascem desprotegidos e heterônomos.Em condições ideais, a criança torna-se progressivamente mais autônoma à medida que cresce e, ao tornar-se mais autônoma, torna-se menos heterônoma. Ou seja, à medida que a criança torna-se apta a governar-se, ela é menos governada por outras pessoas.É ainda muito importante observar que, mesmo os bebês que são heterônomos, porque dependem dos cuidados do outro, mantêm sua capacidade de auto-regulação que precisa ser respeitada e protegida para sua saúde. Isso porque, em última instância, por exemplo, a mãe só pode saber se é tempo de amamentar o bebê quando ele chora sinalizando a sensação de fome. É o bebê que sente e expressa o que sente. Por mais heterônomo que ele seja já nasce com graus e níveis de auto-regulação básicos que só tendem a se desenvolver, mais e mais, se a cultura de criação e educação souber proteger e ler essa capacidade inata do ser vivo humano como uma lei natural da vida, que é básica para todo o desenvolvimento e crescimento do ser humano.
O desrespeito à auto-regulação ocasiona o que Reich denominou de processo de encouraçamento. Vejamos, agora, o que é “couraça” ou “encouraçamento”: é um conceito estudado por Wilhelm Reich. Couraças ou bloqueios musculares: o movimento ondulatório do fluxo energético, que se movimenta pelo eixo longitudinal do corpo, de cima para baixo e de baixo para cima, é interrompido por grupos de músculos que se ordenam ao longo desse eixo longitudinal, como os anéis de uma armadura: daí a denominação “couraças musculares”. Os anéis de músculos são unidades de função vegetativa, que servem para bloquear emoções específicas. Segundo Orson Bean (1975), há muitos séculos, o Homem, único entre todos os animais a assim proceder, vem interferindo no processamento de suas funções naturais, ao evitar o fluxo, a produção e a liberação de sua energia orgônica. E o fez, ao tornar-se incapaz de conseguir satisfação sexual completa, natural e saudável, através de um processo que Wilhelm Reich chama de “couraça”.
Em termos de “couraça de caráter”, que é idêntica à “couraça muscular”, a pessoa moralista possui uma estrutura rígida que a faz desempenhar, invariavelmente, a mesma conduta onde quer que esteja e independentemente da situação. É isso que a caracteriza enquanto neurótica. Já a pessoa auto-regulada é flexível, isto é, controla sua couraça de modo a adaptar-se à situação, não precisando coibir impulsos proibidos. Antes, a pessoa reconhece e identifica seus impulsos, e lida com eles da forma que julgar mais conveniente para si e para o ambiente onde está.
Assim, embasando-se no principio da auto-regulação, a escola teria a preocupação de dar todas as condições necessárias para que a criança possa desenvolver seus potenciais a partir de seus próprios interesses e não ser conduzida, homogeneamente, por interesses exteriores a ela. A proposta pedagógica ancorada no principio da auto-regulação estaria fundamentada no não direcionamento e na crença de que cada um tem o potencial natural de autogerir-se, ou como diria Edgar Morin em sua teoria do pensamento complexo, teria a capacidade de se auto-eco-organizar. O fundamento dessa pedagogia é o respeito aos ritmos naturais e também é a confiança na vida e no potencial do ser humano para promover o bem-comum e social.
Em meu trabalho como educador, com crianças e adolescentes, uso o princípio da auto-regulação apresentado da seguinte forma:
“da Auto-Regulação/Auto-governo/autoconhecimento: o ser humano funciona, tem vida própria auto-regulada em seu sistema biopsíquico e produz conhecimento sobre si mesmo e sobre a vida. Tudo o que produz e constrói, em última instância, vem de dentro de seu ser que está em permanente sócio-interação com o ambiente”.Nesse sentido, explicito aos alunos como funciona nossa aula de educação física:
Em nossa aula de educação física, são organizados dois momentos distintos, mas complementares e integrados na organização da aula. Um momento é heterônomo/hetero-regulador: O professor é o propositor desse momento. É ele que determina a atividade a ser realizada e como será realizada. O professor deve criar aulas que despertem o interesse dos alunos para que possam participar espontaneamente. Faz isso em comum acordo com os alunos, a partir de processo diagnóstico e dialógico/democrático. Nesse momento heterônomo/hetero-regulador o professor preparará atividade/s a ser/em oferecida/s aos alunos, tentando criar e despertar interesse nos mesmos. Os alunos podem participar dela ou não. Caso algum aluno não possa participar, o professor diagnosticará a causa da não participação e dará um encaminhamento junto com o aluno. Dependendo do impedimento dessa participação, o aluno poderá apenas assistir à atividade a ser realizada. Isso vai depender do contexto e das circunstâncias daquele momento. As atividades planejadas pelo professor podem ter caráter prático-vivencial, teórico-prático ou teórico-reflexivo. Numa mesma aula, podem acontecer os três tipos de caráter. O outro momento da aula é autônomo/autoregulador: é um momento auto-eco-organizador. Os alunos decidem qual atividade fazer, como e onde fazê-la, considerando limitações de espaço, de tempo e de material disponível. As escolhas e a organização das atividades são movidas pelo que mais apaixona os alunos, seus interesses, necessidades e motivações. Os alunos, nesse momento, podem se organizar num único grupo ou em vários grupos, os quais são nomeados como GIME - Grupos de Interesse, Movimento e Estudo. Os alunos podem se agrupar nas aulas por afinidades afetivas ou por afinidades, de interesse pelo conhecimento, oportunizando assim a formação desses grupos de trabalho. O professor supervisionará os alunos nas atividades que tiverem escolhido, identificando seus interesses e necessidades em relação à atividade escolhida e os alunos, por sua vez, deverão comunicar ao professor qual o tipo de orientação que gostariam de receber. Por último, vale observar que a ordem de acontecimento dos dois momentos é flexível e determinada por alunos e professor, em conjunto. A periodização de conteúdo é flexível e dinâmica e se adequa aos interesses e necessidades dos/as alunos/as em suas turmas, que são o centro do processo educativo. As aulas são para aqueles que já têm as habilidades iniciais e para os que não têm nenhuma habilidade específica adquirida. Da mesma forma, as aulas são para quem já sabe, e para quem não sabe, ou melhor, são pra quem gosta e para quem não gosta e quer aprender a gostar.
Cabe aqui uma observação muito importante para o trato de uma educação com base na auto-regulação: se essa função educativa natural não for preservada e mantida num bom nível, qualquer tentativa de trabalhar autonomamente poderá resultar em inércia, rebeldia, vandalismo, favorecendo a permanência da educação autoritária, que encontrará assim justificativa para seus argumentos de uma educação disciplinadora e exclusivamente heterônoma (GARCIA, 2006).
Portanto, a auto-regulação é uma condição biológica da espécie humana. É a capacidade que temos de auto-determinar nossa vida, direcionar nossa vida segundo padrões próprios, desejos e pulsões que sentimos e determinamos como sendo mais ou menos satisfatórios para nós. A auto-regulação é a expressão espontânea de um ser de couraça flexível que se expressa espontaneamente, sempre no sentido da busca do prazer (que é a pulsação do ser vivo, num movimento fluido de contração-expansão biológica), que é sentido organicamente. Educar pelo principio da auto-regulação é conduzir o modo de educar as crianças, dando a elas a oportunidade de satisfazer seus impulsos primários, segundo seus desejos, evitando que se transformem em impulsos secundários pervertidos. Impulsos primários na criança são a fome, o sono, as necessidades fisiológicas, o movimento, a expressão livre e espontânea de emoções e sentimentos como tristeza, raiva, medo, alegria e amor, por exemplo. Quando os impulsos primários não podem ser satisfeitos, pelo menos em parte, a criança busca outros caminhos e canais para satisfazer-se, mas é nesse percurso que surgem as defesas de caráter, as “indisciplinas”, os atos de violência, os sintomas, as biopatias e as psicopatologias, as fugas de si mesmo e da vida, como, por exemplo, o refúgio na comida, na mentira, no roubo, as tensões corporais crônicas, os vários tipos de comportamento (violento, individualista, egocêntrico). Inicia-se então o processo de fixação das couraças que determinarão cada tipo de caráter (esquizóide, oral, anal, psicopata, masoquista e rígido). 10
A auto-regulação baseia-se na idéia de funcionalidade dos fluxos naturais e no respeito aos ritmos orgânicos, de modo que cada indivíduo possa desenvolver-se naturalmente, isto é, seguir seu próprio movimento na relação com o meio. Diante disso, fica claro que cabe à cultura criar todas as condições necessárias para esse diálogo entre o interno e o externo. E por isso, Reich dizia e tinha consciência de que tudo depende da cultura, chegando a afirmar que uma verdadeira cultura só surgiria quando se respeitasse a dimensão de animalidade do homem, o que por nós é traduzido por sua condição de natureza biológica pulsional auto-reguladora.
Para Reich, a auto-regulação deve ser posta em prática desde o nascimento das crianças, de modo a permitir-lhes a expressão sincera de seus sentimentos. Trabalhar com o princípio da auto-regulação é preservar a natureza e a essência da vida (pulsação energética biológica) e é o ponto de partida para a educação de crianças, abrindo campo para uma pedagogia que respeite as características do desenvolvimento de cada um.
A reflexão reichiana em torno do estudo da auto-regulação indica que a essência humana é primariamente boa e amorosa, a qual se expressa através da generosidade e do amor natural do ser humano para com a vida. Nessa perspectiva as crianças são naturalmente sensatas, realistas, boas e criativas se não forem deformadas pela cultura e educação repressivas, conforme nos ensina a teoria da psicologia sócio-política de Wilhelm Reich.
Educar pela auto-regulação é saber que as pessoas são capazes de entrar em contato direto com seus sentimentos e expressá-los o mais livre e autenticamente possível. Assim, segundo André Barreto (2000), o cuidado com o universo do sentimento é fundamental para o desenvolvimento sadio de qualquer ser humano, motivo pelo qual a perspectiva de uma filosofia e pedagogia intelectuais é nociva. Deveriam, elas, sim, favorecer o cultivo dos afetos, já que lidar com os próprios sentimentos é algo tão passível de aprendizado, quanto o cálculo numérico ou a fisiologia do corpo humano.
Para lidar com os afetos, é preciso aprender a lidar com frustração e satisfação pulsional. Segundo Paulo Albertini (1994), para Wilhelm Reich, em toda a educação da criança11 existe uma relação entre frustração e satisfação pulsional. Para ele a mais adequada maneira de educar uma criança é aquela em que ocorrem frustração e satisfação pulsional parciais. O que a caracteriza é a presença da ação educacional frustrante, sem uma conseqüente inibição pulsional completa. Um rápido exemplo: quando uma mãe ou pai não pode satisfazer um desejo da criança, diante da frustração deve ser permitido a ela chorar. Assim, ela foi frustrada, mas pode expressar seu sentimento diante da frustração, o que lhe garante saúde energética e emocional.
Segundo Paulo Albertini (1994), para Wilhelm Reich, a auto-regulação implica no fato de que a vida orgânica do ser humano é sábia e sabe criar melhor do que ninguém as suas necessárias formas de existência e é o desconhecimento do ser humano a esse respeito que cria todas as dificuldades e encouraçamentos que indicam que o ser humano não aprendeu a ver o que está diante de seus próprios olhos: a sábia natureza da vida expressa no próprio corpo do ser humano, indicando-lhe como a vida funciona e como deveria ser conduzida pela cultura humana.
A educação baseada na auto-regulação nos faz refletir sobre a relação natureza e cultura em nosso contexto ocidental: há um tipo de pensamento, em nosso meio intelectual que acredita que a cultura domina a natureza e que lhe é superior, ou seja, que a cultura pode tudo diante da natureza. Isso foi e continua a ser um dos maiores erros de nossa cultura humana, pois, na verdade, hoje, ainda mais do que ontem, os ecologistas estão nos mostrando que a natureza tem primazia sobre a cultura. A força da natureza é capaz de exigir que a cultura se repense, se transforme, mude sua perspectiva, sob pena, inclusive, de não poder existir mais cultura. Há um momento em que o desrespeito da cultura pela natureza é tão grande que a natureza simplesmente responde de um modo que nós podemos perceber que ela não se importa com a cultura humana, porque sua finalidade é manter a vida planetária e cósmica e, se os humanos ameaçam a vida, podem ser dizimados, assim como já aconteceu com outras espécies sobre a face da Terra.
Por isso, finalizo este texto, apresentando o sensível poema de Ademar Ferreira dos Santos (2000) que, de modo poético, nos mostra os sentidos de uma educação auto-regulada.
Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
deixa-me arriscar o molde talvez incerto
deixa-me arriscar o barro talvez impróprio na oficina onde ganham
forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
deixa-me arriscar o molde talvez incerto
deixa-me arriscar o barro talvez impróprio na oficina onde ganham
forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida