ADORNO

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quarta-feira, 11 de julho de 2018

FELIZ IDADE


Fui infectado alguns anos atrás, para ser mais exato na década de 90, por essa arte chamada filosofia. Acho que foi quando ganhei das mãos da professora Marilena Chaui, com dedicatória e tudo seu livro “ Introdução a filosofia”. Dali para cá, definho rapidamente, com a certeza de que se o inferno existe é aqui! Desculpem a frase feita, mas foi a única que me veio à mente nessa hora.
Sou movido a utopia, tenho boa saúde, nunca entrei em um hospital, não tenho amigos de fato, todos foram efêmeros, assim como meus cinco casamentos e 3 filhos, logo, não amo e nem me sinto amado.
Difícil aceitar, mas a vida chegou num momento de transição, onde nada é mais recuperável; com alguns cabelos brancos, musculatura com princípios de flacidez, um corpo já não tão ágil, estou incapaz de dar porradas, quanto mais receber; aproxima-se o momento de ter como contato principal na agenda o telefone do SAMU e nunca esquecer de levar na pochete um item imprescindível: A fralda geriátrica. Tenho a certeza de que não verei o mundo que quero e pelo qual lutei e luto.
Não consegui ser feliz, talvez porque ainda procuro, se procuro não encontrei. Escreveu uma vez Cecília Meirelles:

“ És precária e veloz, felicidade,
custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.”

Será? Tentei...tentei...tentei...tento de novo...
Já bebi muita Coca-Cola, muitas vezes bêbado, rezei, chorei, rezei, cherei, fumei, comi cogumelos e até tentei consultar Carlos Castanheda, fiz simpatias para emagrecer e ficar jovem para sempre.
A felicidade não jorrou, não alimentou, não encheu os pulmões, ninguém escutou, continuo enrugando o tempo e com uma baita sensação de infelicidade.
Nem meus heróis, nem Cazuza foram felizes, muito menos Cássia Eller, talvez se eu ainda fosse uma menininha em meias ¾ quem sabe? Quando acordo sorridente e comunicativo, alguém confunde com felicidade e diz: Que foi? Viu um passarinho verde? Não vai ser sempre assim...
Me recuso aos falaciosos argumentos do mundo capitalista sobre os modelos de felicidade baseados no consumismo ou em um mundo perfeito proposto pelo socialismo. Não posso acreditar em felicidade a partir do que possuo, isso é prazer, muito menos em uma ideia de felicidade baseada em sofrimento, lutas e conquistas. Nunca fui, não sou e nem serei eventualmente feliz. Não acredito muito nisso, pois levo sempre em conta o outro, é como ser ateu, negar a existência de algo é admitir que algo existe, vou sair desse embrólio dizendo que estou com Wave de Tom Jobim:
“È impossível ser feliz sozinho, o resto é mar...”
Agora que estou deixando a adolescência posso confessar, que não guardei ou cultivei felicidade, por isso quando encontrar não saberei o que é, também não a confundirei com prazer, euforia, bem-estar como fazem muitos. O certo é que faço como Frank no consultório do psicanalista:
“- Eu não quero fugir da realidade doutor. Eu só quero que ela me deixa em paz um pouquinho...”


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