ADORNO

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sábado, 28 de janeiro de 2012

A participação da mulher na transformação social

Por Christiane Campos

Durante muito tempo se cultivou entre os movimentos sindicais, sociais e partidos de esquerda no Brasil uma compreensão de que a sociedade se divide entre ricos e pobres. Por isso a luta pela transformação social deveria ser orientada para acabar com a desigualdade de classe. As reivindicações das mulheres, pessoas negras/indígenas, de homossexuais, eram consideradas lutas das “minorias” e deveriam ser feitas depois da sonhada igualdade social. Na prática, essa concepção da luta de classe ainda é muito forte nas organizações trabalhistas e camponesas e só contribui para fortalecer o padrão de gênero machista de nossa sociedade.
O machismo aparece de várias formas: na valorização da mulher só como mãe ou como objeto sexual; na linguagem quando só nos dirigimos aos companheiros; nas piadinhas e nas músicas que desqualificam as mulheres; nos meios de comunicação em que a mulher é usada para vender todos os tipos de mercadoria; nas religiões em que Deus é pai e aqui na terra os homens controlam as igrejas em seu nome porque as mulheres simbolizam o pecado; na economia em que as mulheres trabalham mais horas e recebem salários menores; mesmo nas organizações populares em que as mulheres são excluídas ou tem presença simbólica nos espaços de negociação, de tomada de decisões estratégicas. Enfim, cotidianamente a “superioridade” masculina é vista, sentida, falada, manifestada em pensamentos e ações como naturais, não como uma construção social e histórica. Isso faz com que mesmo dentro das classes pobres, tanto do campo quanto da cidade, a vida dos homens seja um pouco mais fácil. Segundo o censo do IBGE, nós mulheres já somos 51% da população brasileira, mas é como “minoria” que continuamos a ser tratadas. Tanto que as políticas direcionadas às mulheres em áreas de saúde ou combate à violência são consideradas não como atendimento de necessidades sociais da maioria da população e sim como benefícios. E as reivindicações das mulheres não são entendidas como direitos e sim desejos, sonhos, ou questões femininas relegadas a segundo plano, tanto pelos movimentos quanto pelo Estado.
A partir dessas breves reflexões pode-se concluir que as mulheres são maioria entre as pessoas descontentes com o tipo de sociedade. Nesse sentido, são candidatíssimas a abraçar a luta pelo socialismo.
A história de países que construíram o socialismo revela que derrotar o capitalismo não é suficiente para acabar com a discriminação das mulheres. James Petras em um texto sobre a relação entre a luta de gênero e classe revela que em várias revoluções na América Latina as mulheres foram participantes ativas e após a conquista do poder os companheiros revolucionários as mandaram de volta para casa. As classes oprimidas são compostas por pessoas que tem diferenças de gênero (são masculinas e femininas), de idade, de etnia, etc.Tratar igualmente situações desiguais é manter a injustiça social.
O projeto só será popular com o fim da opressão
Um projeto para ser efetivamente popular deve se fundamentar nas necessidades da maioria da população. E como a maioria do povo brasileiro, especialmente a população pobre, é constituída por mulheres, elas precisam ser sujeitas dessa construção. Caso contrário, o projeto não será popular e não servirá de instrumento para que se construa uma sociedade sem exploração e dominação.
Nesse sentido a participação das mulheres no projeto popular não é para que ele seja mais sensível, bonito e delicado. É necessário que ele seja real, incorporando as reivindicações e sugestões de quem mais sofre com o capitalismo. No caso da luta camponesa, a participação das mulheres é fundamental para se discutir agroecologia, soberania alimentar, diversidade de produção e resgate de sementes porque historicamente é o trabalho agrícola feminino que gera a maior parte dos alimentos da população do campo.
Mas a participação feminina não pode ser um projeto para o futuro. Ela precisa ser garantida desde agora pelas organizações das classes trabalhadora e camponesa. Temos que aprender um novo jeito de fazer luta de classe, respeitando as diferenças e de fato criando as condições objetivas e subjetivas para as mulheres participarem. Isso implica em ampliar a participação de mulheres nos espaços de decisão política e econômica, fazer a formação de lideranças femininas, criar espaços para as crianças, combater internamente as desigualdades e os preconceitos, e exercitar a democracia interna.
É a partir da participação efetiva de um número cada vez maior de mulheres nas organizações políticas, sociais, sindicais, que vamos ampliar as conquistas femininas e sinalizar para a maioria do povo brasileiro que vale a pena lutar pela transformação social. Para isso, a luta pelo socialismo precisa incorporar o feminismo e nesse campo muitas cercas ainda precisam ser rompidas. A maioria dos homens e mulheres que dizem não gostar do feminismo nem sabem o que ele significa.
Também já aprendemos com a história que a opressão só é vencida por quem é oprimida e/ou oprimido. No caso da luta contra o machismo, as mulheres é que são as maiores vítimas por isso precisam assumir o comando e garantir que a participação feminina na luta de classe, no projeto popular, não seja apenas simbólica, só um elemento místico. Nesse sentido precisam se organizar, construir alianças entre mulheres do campo e da cidade, fortalecer lutas em que as mulheres sejam protagonistas como o 8 de março. Para aqueles e aquelas que sempre argumentam que as mulheres não estão preparadas, vale lembrar que tudo na vida se aprende fazer fazendo. Portanto, é participando que se aprende a participar e se eleva o nível de consciência, forjando lutadoras e lutadores não apenas por cidadania, mas por uma sociedade efetivamente justa, uma sociedade socialista.
* Christiane Campos é jornalista e economista, integrante do Setor de Gênero do MST.
As desigualdades de gênero em números
Mercado de Trabalho
Segundo o Dieese, as maiores regiões metropolitanas do Brasil, o rendimento médio anual das mulheres é 30% menor que o dos homens. No meio rural a desigualdade é ainda maior, as mulheres recebem em média 36% do valor do rendimento médio dos homens. Para as mulheres negras a desigualdade salarial é vergonhosa: elas recebem 55% menos do que a média salarial geral.
Pobreza
Segundo o relatório da ONU de 1995 as mulheres representam 70% do total de pessoas vivendo em situação de pobreza absoluta no mundo. Isso significa que falar em pobreza é falar de mulher.
Violência
No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher é agredida em sua própria casa e em 70% dos casos o agressor é o marido ou companheiro.
Mulher no meio rural
Segundo FAO, órgão da ONU para Agricultura, em 2001 as mulheres representavam 51% da força de trabalho agrícola do mundo. Mas somente 15% das pessoas do mundo que trabalham em extensão rural eram mulheres e apenas 5% dos serviços de divulgação agrária (informativos) eram destinados às agricultoras.
Mulher nos assentamentos
Apenas 12% dos lotes de terras em assentamentos no Brasil estão em nome das mulheres. Na maioria dos casos as mulheres participam da luta pela terra, mas são cadastradas no Incra como dependentes dos homens, por isso nos assentamentos não tem acesso a créditos, não são reconhecidas como agricultoras e ficam excluídas de direitos trabalhistas e previdenciários.

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