Começamos com uma questão central: qual é a conformação atual da classe trabalhadora? Qual é a sua forma de ser hoje? Se a classe trabalhadora não é idêntica àquela existente em meados do século passado, estará o mundo do trabalho em via de desaparição? E mais, a classe trabalhadora é mesmo ontologicamente reformista, teria perdido seu sentido revolucionário? Vamos tentar problematizar estas questões, no texto que segue.
Muitas vezes Marx e Engels definiram a classe trabalhadora e o proletariado como sinônimos. Podemos dizer que, na Europa de meados do século 19, os trabalhadores assalariados que inspiraram a reflexão daqueles autores eram fundamentalmente os proletários industriais, o que permitia um uso comum e mesmo indiferenciado entre classe trabalhadora e proletariado.
Nosso primeiro desafio teórico e político é procurar entender o que é a classe trabalhadora hoje, o que é contemporaneamente o proletariado. Iniciamos dizendo que ela compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção, conforme a definição marxiana.
Ela tem como núcleo central o conjunto do que Marx chamou de trabalhadores produtivos, para lembrar especialmente o Capítulo Inédito (VI), bem como de inúmeras passagens de O Capital, onde a idéia de trabalho produtivo é formulada. Neste sentido, eu diria que a classe trabalhadora hoje não se restringe somente aos trabalhadores manuais diretos, mas a classe trabalhadora hoje incorpora a totalidade do trabalho social, a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário. Muitas vezes Marx e Engels definiram a classe trabalhadora e o proletariado como sinônimos. Podemos dizer que, na Europa de meados do século 19, os trabalhadores assalariados que inspiraram a reflexão daqueles autores eram fundamentalmente os proletários industriais, o que permitia um uso comum e mesmo indiferenciado entre classe trabalhadora e proletariado.
Nosso primeiro desafio teórico e político é procurar entender o que é a classe trabalhadora hoje, o que é contemporaneamente o proletariado. Iniciamos dizendo que ela compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção, conforme a definição marxiana.
Mas ela é hoje centralmente composta pelo conjunto de trabalhadores produtivos que são aqueles que produzem diretamente mais-valia e que participam também diretamente do processo de valorização do capital, através da interação entre trabalho vivo e trabalho morto, entre trabalho humano e maquinário científico-tecnológico. Este segmento constitui o núcleo central do proletariado moderno. Os produtos materiais e imateriais, presentes no universo produtivo e de serviços (que muitas vezes estão imbricados) são resultados da interação entre trabalho vivo e trabalho morto, por mais que muitos autores, como Habermas, Offe, Jeremy Rifkin, Dominique Meda etc., afirmem que o trabalho abstrato teria perdido sua força estruturante na sociedade atual.
Se o trabalho abstrato (dispêndio de energia física e intelectual para produzir mercadorias, conforme disse Marx em O Capital) perdeu a sua força estruturante na sociedade atual, como são produzidos os automóveis da Toyota, quem cria os computadores e os programas da Microsoft, os hambúrgueres do McDonald's, só para citar alguns exemplos de grandes empresas transnacionais?
A classe trabalhadora incorpora também o conjunto dos trabalhadores improdutivos, novamente no sentido de Marx. Aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviços, seja para uso público, como os serviços públicos tradicionais, seja para uso capitalista. O trabalho improdutivo é aquele que não se constitui enquanto um elemento vivo no processo direto de valorização do capital e de criação de mais-valia.
Por isso Marx o diferencia do trabalho produtivo, aquele que participa diretamente do processo de criação de mais valia. A classe trabalhadora inclui, portanto, o amplo leque de assalariados do setor de serviços que não criam diretamente valor. Os trabalhadores improdutivos, sendo geradores de um antivalor no processo de trabalho capitalista, vivenciam situações que têm similitude com aquelas vivenciadas pelo trabalho produtivo. Eles pertencem ao que Marx chamou de falsos custos, os quais, entretanto, são absolutamente vitais para sobrevivência do sistema capitalista.
Visto que todo trabalho produtivo é assalariado, mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo, uma noção contemporânea de classe trabalhadora deve incorporar a totalidade dos trabalhadores assalariados. A classe trabalhadora hoje é mais ampla do que o proletariado industrial do século passado, embora este – o proletariado industrial moderno – se constitua no núcleo fundamental dos assalariados, deste campo que compõe o mundo do trabalho, uma vez que ele é centralmente o trabalhador produtivo. Quer ele realize atividades materiais ou imateriais. Quer atuando numa atividade manual direta, quer nos pólos mais avançados das fábricas modernas, exercendo atividades mais “intelectualizadas”.
O papel de centralidade ainda se encontra, então, claramente no universo do trabalho produtivo, do trabalho social e coletivo que cria valores de troca, que gera a mais-valia. Esta forma de ser dos trabalhadores é o que lhe dá, ontológica e teleologicamente, uma potencialidade revolucionária. Ele ainda participa direta e centralmente da criação do valor e, por este papel de centralidade, é que pode se constituir, objetiva e subjetivamente, como classe revolucionária. Não é demais repetir: a classe trabalhadora é ontologicamente decisiva pelo papel fundamental que exerce no processo de criação de valores. E na materialidade mesma do sistema, e pela potencialidade subjetiva que isso significa, que o seu papel se torna central. E ela só perderá esta potencialidade se e quando o trabalho assalariado deixar de ser central para a reprodução do capital.
Portanto, a classe trabalhadora hoje incorpora também aqueles que vendem sua força de trabalho em troca de salário, como o proletariado rural que vende a sua força de trabalho para o capital, os chamados bóias-frias das regiões agroindustriais e, no final do Século 20, incorpora também o proletariado precarizado, o proletariado moderno, fabril e de serviços, part time, que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, em expansão na totalidade do mundo produtivo. E inclui também a totalidade dos trabalhadores desempregados.
Naturalmente, estão excluídos, isto é, não fazem parte da classe trabalhadora, os gestores do capital, que são parte constitutiva da classe dominante, pelo papel central que tem no controle e gestão do capital, que detêm papel de controle no processo de valorização e reprodução do capital, bem como os pequenos empresários, a pequena burguesia urbana e rural que é detentora, ainda que em pequena escala, dos meios de sua produção. E estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação.
Então, compreender contemporaneamente a classe trabalhadora, de modo ampliado, implica entender este conjunto de seres sociais que vivem da venda da sua força de trabalho, que são assalariados e são desprovidos dos meios de produção.
A classe trabalhadora tem, portanto, uma conformação mais fragmentada, mais heterogênea, mais complexificada. E vivencia condições que intensificam seu processo de exploração. Por isso, não podemos concordar com a tese do fim do trabalho e muito menos com o fim da revolução do trabalho. A emancipação dos nossos dias é centralmente uma revolução no trabalho, do trabalho e pelo trabalho. O seu agente central é a classe trabalhadora. Mas ela é um empreendimento societal mais difícil, uma vez que não é fácil resgatar o sentido de pertencimento de classe, que o capital e suas formas de dominação (incluindo a decisiva esfera da cultura) procuram mascarar e nublar.
Durante a vigência do taylorismo/fordismo, no século 20, os trabalhadores por certo não eram homogêneos; sempre houve homens-trabalhadores, mulheres-trabalhadoras, jovens-trabalhadores, qualificados e não-qualificados, nacionais e imigrantes etc., isto é, as múltiplas clivagens que marcam a classe trabalhadora. É evidente também que no passado também já havia terceirização (em geral, os restaurantes eram terceirizados, a limpeza era terceirizada, o transporte coletivo etc.). Deu-se, entretanto, uma enorme intensificação deste processo que alterou sua qualidade, fazendo aumentar e intensificar em muito as clivagens anteriores.
Ao contrário do taylorismo e do fordismo (que, é bom lembrar, ainda é vigente em várias partes do mundo, ainda que de forma muitas vezes híbrida ou mesclada), no toyotismo, na sua versão japonesa, o trabalhador torna-se um déspota de si próprio. Ele é instigado a se auto-recriminar e se punir, se a sua produção não atingir a chamada “qualidade total” (essa falácia mistificadora do capital). Ele trabalha num coletivo, em times ou células de produção, e se um trabalhador ou uma trabalhadora não comparece ao trabalho, será cobrado pelos próprios membros que formam sua equipe. É assim no ideário do toyotismo. Tal como a lógica deste ideário é concebida, as resistências, as rebeldias, as recusas, são completamente repudiadas, consideradas como atitudes contrárias “ao bom desempenho da empresa”.
E há ainda uma questão muito importante: o taylorismo e o fordismo tinham uma concepção linear, onde a Gerência Científica elaborava e o trabalhador manual executava. O toyotismo percebeu, entretanto, que o saber intelectual do trabalho é muito maior do que o fordismo e o taylorismo imaginavam, e que era preciso deixar que o saber intelectual do trabalho florescesse e fosse também ele apropriado pelo capital. Trata-se daquele momento em que o dispêndio de energia, para lembrar o Marx, torna-se dispêndio de energia intelectual, que o capital toyotizado incentiva para dele também se apropriar, numa dimensão muito mais profunda do que o taylorismo e o fordismo fizeram. Somente por isso é que o capital deixa, durante um período da semana (em geral uma ou duas horas), os trabalhadores aparentemente “sem trabalhar”, discutindo nos Círculos de Controle da Qualidade. Porque são nestes momentos que as idéias de quem realiza a produção florescem – indo além dos padrões dados pela Gerência Científica – , e o capital toyotizado sabe se apropriar intensamente desta dimensão intelectual do trabalho que emerge no chão da fábrica e que o taylorismo/fordismo desprezava.
É evidente que deste processo que se expande e se complexifica nos setores de ponta do processo produtivo (o que não pode ser em hipótese nenhuma hoje generalizado) resultam máquinas mais inteligentes, que por sua vez precisam de trabalhadores mais “qualificados”, mais aptos para operar estas máquinas informatizadas. E, na processualidade desencadeada, novas máquinas mais inteligentes passam a produzir atividades anteriormente feitas pela atividade exclusivamente humana, desencadeando-se um processo de interação entre trabalho vivo diferenciado e trabalho morto mais informatizado. O que levou a Habermas dizer, em minha opinião erroneamente, que a ciência transformava-se em principal força produtiva, substituindo – e com isso eliminando – a relevância da teoria do valor-trabalho. Ao contrário, penso que há uma nova forma de interação do trabalho vivo com o trabalho morto, há um processo de tecnologização da ciência que, entretanto, não pode eliminar o trabalhado vivo, ainda que possa reduzi-lo, alterá-lo, fragmentá-lo. Mas a tragédia do capital é que ele não pode suprimir definitivamente o trabalho vivo, não podendo, portanto, eliminar a classe trabalhadora.
Ao contrário, portanto, da afirmação do fim do trabalho ou da classe trabalhadora, há um outro ponto que nos parece mais pertinente, instigante e de enorme importância: nos embates desencadeados pelos trabalhadores e os segmentos socialmente excluídos, que o mundo tem presenciado, é possível detectar maior potencialidade e mesmo centralidade nos estratos mais qualificados da classe trabalhadora, naqueles que vivenciam uma situação mais “estável” e que têm, conseqüentemente, maior participação no processo de criação de valor?
Ou, pelo contrário, o pólo mais fértil da ação encontra-se exatamente naqueles segmentos sociais mais excluídos, nos estratos mais subproletarizados?
Sabe-se que aqueles segmentos mais qualificados, mais intelectualizados, que se desenvolveram junto com o avanço tecnológico, pelo papel central que exercem no processo de criação de valores de troca, poderiam estar dotados, ao menos objetivamente, de maior potencialidade anticapitalista. Mas, contraditoriamente, estes setores mais qualificados são exatamente aqueles que são objeto direto de intenso processo de manipulação, no interior do espaço produtivo e de trabalho. Podem vivenciar, por isso, subjetivamente, maior envolvimento e subordinação por parte do capital, da qual a tentativa de manipulação elaborada pelo toyotismo é a melhor expressão. Lembre-se do lema da “Família Toyota”, no início dos anos 50: “Proteja a empresa para defender a Vida”.
Por outro lado, parcelas de trabalhadores mais qualificados também são mais suscetíveis, especialmente nos países capitalistas avançados, por ações que se pautam por concepções de inspiração neocorporativa.
Em contrapartida, o enorme leque de trabalhadores precários, parciais, temporários etc., que denominamos subproletariado, juntamente com o enorme contingente de desempregados, pelo seu maior distanciamento do processo de criação de valores, teria, no plano da materialidade, um papel de menor relevo nas lutas anticapitalistas. Porém, sua condição de despossuído e excluído o coloca potencialmente como um sujeito social capaz de assumir ações mais ousadas, uma vez que estes segmentos sociais não têm mais nada a perder no universo da sociabilidade do capital. Sua subjetividade poderia ser, portanto, mais propensa à rebeldia.
As recentes greves e as explosões sociais, presenciadas pelos países capitalistas avançados, constituem-se em importantes exemplos das novas formas de confrontação social contra o capital. Podemos exemplificar com a explosão de Los Angeles, a rebelião de Chiapas no México, a emergência do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) no Brasil. Ou com as inúmeras greves ampliadas dos trabalhadores, como a dos trabalhadores das empresas públicas na França, em novembro-dezembro de 1995, a longa greve dos trabalhadores portuários em Liverpool, desde 1995, ou a greve de cerca de 2 milhões de metalúrgicos na Coréia do Sul, em 1997, contra a precarização e flexibilização do trabalho. Ou, ainda, a greve dos transportadores da United Parcel Service, em agosto de 1997, com 185 mil paralisados, articulando uma ação conjunta entre trabalhadores part-time e full-time, além das recentíssimas batalhas de Seattle, Washington, Praga, Nice, das explosões sociais da América Latina etc.
Essas ações, entre tantas outras, muitas vezes mesclando elementos desses pólos diferenciados da classe-que-vive-do-trabalho, constituem-se em importantes exemplos dessas novas confrontações contra a lógica destrutiva que preside a sociabilidade contemporânea. Mostram ainda a vitalidade das lutas e rebeliões que emergem a partir do mundo do trabalho, aos quais se agregam crescentemente os contingentes mais precarizados e também os desempregados, em brutal expansão no mundo contemporâneo. E nos permitem refletir, também, sobre as formas contemporâneas da centralidade do trabalho.
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