ADORNO

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sociologia e socialismo: lembrando Florestan Fernandes


 
A idéia de escrever este pequeno artigo surgiu da releitura de alguns trabalhos e depoimentos de Florestan Fernandes, a partir dos quais procurou estabelecer relações entre sociologia e socialismo. É ao mesmo tempo uma homenagem ao sociólogo paulistano, às vésperas de sua data de nascimento, em 22 de julho de 1920, e após quase doze anos de sua morte, em 10 de agosto de 1995, vitimado pelas imperícias médicas de um mal fadado transplante de fígado. Sem dúvida, a lembrança de Florestan Fernandes cala profundamente nas mentes e corações de todos os cientistas sociais que estejam identificados com aspirações revolucionárias, socialistas, de transformação das sociedades brasileira, latino-americanas e dos demais países subdesenvolvidos, dependentes e imperializados da Ásia e África. Sua corajosa tomada de posição ideológica, em face de uma íntima e recíproca aproximação entre socialismo e sociologia, não só nos serve de inspiração e como testemunho intelectual do rigor e da profundidade do conhecimento orientado por posições políticas de contestação e crítica da ordem social capitalista, mas revela também a necessidade e a possibilidade atuais desta perspectiva radicalizada de produção do saber científico (apenas desqualificada pelos que se julgam “neutros” e “objetivos”) diante da extremada concentração mundial de riqueza e poder (este em grande medida militarizado) entre as nações centrais e periféricas, responsável pelas misérias crescentes de nossos povos e pelo seu alijamento das principais decisões que marcam os rumos da transformação de suas próprias sociedades. O exemplo de Florestan Fernandes nos traça, enfim, os contornos mais gerais de uma prática sociológica orientada por autênticos propósitos de mudança social revolucionária e banimento, de uma vez por todas, das condições de reprodução da pobreza e alienação das camadas subalternas e classes trabalhadoras.
Não caberia aqui um resgate sistemático de sua concepção de ciência sociológica, em particular o modo como pensou sobre as grandes divisões e problemas da Sociologia nos idos da década de 1950 (Fernandes, 1976: 20-30), porém seria importante lembrar como os campos por ele trabalhados de sua especialidade – as sociologias sistemática, descritiva, comparada, diferencial, aplicada e geral – foram estabelecidos levando-se em conta as múltiplas polarizações ideológicas dos clássicos das ciências sociais, num esforço original (ainda hoje não devidamente reconhecido e compreendido) de síntese teórica fundamentado pelas sugestões de uma Sociologia do Conhecimento inspirada em Mannheim e, mais remotamente, no Marx de A Miséria da Filosofia e A Ideologia Alemã. Diante das diversas impregnações ideológicas e utópicas do saber científico, o sociólogo deveria realizar a investigação das raízes sociais da Sociologia, em suas diferentes correntes, no intuito de delimitar as vantagens e limites de focalização do objeto determinados pela práxis política dos investigadores, situados em posições de classe as mais diversas. A possibilidade de pesar e julgar as múltiplas perspectivas daria ao sociólogo certa independência e autonomia, sendo também curioso notar que, para Florestan (1976: 409-23), deveria ser essa a postura mais acertada para um cientista social que se identificasse como marxista. Nesses termos, o conhecimento sociológico, embora não se reduzindo a seus condicionantes sociais específicos, de classe ou qualquer outro fator, estaria intimamente imbricado ao conflito entre ideologias e utopias antagônicas em suas lutas políticas pela aceitação da verdade inerente a suas respectivas concepções de mundo. Assim caracterizada, a Sociologia deteria exigências teóricas, práticas e empíricas próprias, não podendo identificá-la de forma exclusiva com uma ou outra ideologia, fosse ela de cunho conservador, reformista, liberal ou revolucionário. Tais reflexões estariam, por exemplo, na base das distinções que faz entre socialismo e ciências sociais (Fernandes, 1976: 293-5), apesar de suas origens históricas comuns no século XIX europeu.
Muitos poderiam dizer, contudo, que essa posição de Florestan diria respeito a uma fase bastante particular de sua obra e trajetória intelectual. Posteriormente teria ele abandonado a Sociologia e seus métodos mais associados a ideologias conservadoras, como o estrutural-funcionalismo, e aderido a uma perspectiva explicitamente marxista, dialética, revolucionária e materialista histórica. Essa é uma visão simplista, que não leva em conta a evolução do pensamento sociológico de Florestan Fernandes. Primeiro, as idéias de Marx sempre estiveram presentes em seu horizonte científico, mesmo que sua preocupação mais evidente tenha sido a de considerar as influências do socialismo no conjunto das ciências sociais. Segundo, a sua visão de que sociologia e socialismo eram duas coisas distintas não teria sido abandonada, apesar de ter passado a conceber como intrínseca à sua definição intelectual de sociólogo “uma perspectiva ideológica explicitamente socialista” (Fernandes, 1978: 129). Terceiro, Florestan não repudiou suas antigas posturas analíticas inspiradas no estrutural-funcionalismo – não à la Parsons ou Merton, mas muito mais enraizado nas tradições sociológicas francesas de elaboração de tipos sociais, com vistas à comparação entre estruturas de sociedades as mais diversas – após a radicalização de suas aspirações socialistas mais íntimas e seu aprofundamento das tradições revolucionárias provenientes do marxismo, anarquismo, outras correntes do movimento operário (dentre as quais algumas de cunho reformista) e, ainda, de expressões do pensamento anti-colonial como José Martí. Ora, é certo que, se o enfrentamento de Florestan contra a ditadura militar no Brasil (1964-1989) não tivesse sido tão duro e levado até as últimas conseqüências, sua evolução intelectual e política talvez fosse inteiramente outra, porém isso não impede de reconhecer certas continuidades em seu pensamento, a serem mais entendidas como firmeza de propósitos e convicções científicas do que como inconsistências ideológicas, vacilações ecléticas e uma incorporação incompleta do marxismo. Seria oportuno, portanto, indicar rapidamente quais os elementos mais gerais da forma como Florestan, na década de 1970, passou a definir sua condição de sociólogo em termos da óptica socialista da luta de classes e de transformação revolucionária da sociedade brasileira.
As reflexões de Florestan Fernandes sobre sociologia e socialismo podem ser encontradas, expressas de modo bastante direto, em pelo menos dois de seus escritos. O primeiro texto se intitula “Sociologia, modernização autônoma e revolução social”, apresentado, em 1970, como comunicação ao X Congresso Latino-Americano de Sociologia (Santiago do Chile) e depois publicado em Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina (1973). Nessa ocasião os intuitos de projetar a Sociologia nos processos políticos de “revolução dentro da ordem” e “contra a ordem”, procurando encadear essas duas etapas históricas interdependentes num mesmo movimento de precipitação revolucionária das mudanças sociais construtivas e necessárias à alteração do real estado de coisas, dentro de uma perspectiva especificamente socialista, são já explicitamente formulados. Agora, para Florestan, a Sociologia não poderia mais deixar de levar em conta e integrar no seu horizonte científico, em suas categorias teóricas e métodos de investigação, os prognósticos de alteração da ordem social fornecidos pela concepção socialista de mundo. Essa ligação íntima entre ciência e ideologia não afetaria a qualidade da explanação sociológica. Ao contrário, iria contribuir para seu enriquecimento, maior rigor e precisão, dado seu fator de libertação da consciência social do investigador de vários dos obstáculos e limitações da socialização burguesa do intelectual inerente a aspectos de sua formação universitária. O segundo texto, bem mais curto e sintético, aparecido em 20 de julho de 1975 com o título “Sociologia – Tirando o socialismo da quarentena” [1], defende uma imbricação profunda entre sociologia e socialismo no contexto latino-americano de cerco repressivo levantado pelas burguesias nacional (pró-imperialista) e estrangeira contra as forças sociais das revoluções “dentro da ordem” e “contra a ordem”. São inequívocas as palavras de Florestan Fernandes (1995: 160) a esse respeito:
“Em tal situação, ao contrário do que afirmam os corifeus de uma pretendida ‘neutralidade científica’, é impossível (e também indesejável e improdutivo) separar a investigação sociológica do movimento socialista, isolando a sociologia do socialismo. A realidade impõe que ambos avancem interligados, influenciando-se de maneira permanente, profunda e fecunda. Na verdade, pode-se ser sociólogo sem ser, ao mesmo tempo, socialista; e, reciprocamente, o movimento socialista pode passar fora e acima da investigação sociológica institucionalizada. No entanto, a análise e a explicação sociológica dos grandes processos históricos de nossa era não só têm de levar em conta as premissas teóricas e as conseqüências práticas do socialista, elas precisam se abrir para os vários aspectos do desmoronamento e da construção do socialista, seja como ‘dados empíricos’, seja como elemento da estrutura do horizonte intelectual do sujeito-investigador (o que pressupõe não só uma metodologia especial mas, também, uma atitude ou orientação política). Além disso, tendo-se em vista a complexa resistência do capitalista monopolista e do Estado capitalista moderno ao desmoronamento e à transição socialista, hoje nem o ‘socialista revolucionário’ pode prescindir das contribuições da investigação sociológica, resulte ela de uma produção improvisada do publicista e do intelectual de partido ou da colaboração do sociólogo profissional engajado”.
Os acontecimentos políticos que projetaram Florestan no combate direto contra a ditadura, em especial a luta pela reforma universitária entre 1967 e 68, aguçaram sua consciência da reciprocidade de perspectivas entre sociologia e socialismo, não só no plano dos estímulos ideológicos ao conhecimento rigoroso da realidade presentes nos objetivos de transformação revolucionária da ordem capitalista brasileira, mas também no da afinidade entre ambos no que concerne ao compartilhamento da visão científica do mundo. Florestan caracterizava o socialismo de inspiração marxista, em suas diferentes vertentes, como uma convergência de elementos ideológicos, utópicos e especificamente científicos (Fernandes, 1978: 119-23). O ponto de vista sociológico não só poderia ingressar nesse quadro global, mas deveria dele participar, a fim de enriquecer a visão de mundo socialista e superar a si mesmo, em seus empecilhos teóricos, práticos e empíricos de conhecimento da realidade. Não se trataria, portanto, de uma mera tomada de posição ideológica de Florestan Fernandes em face do problema das relações entre sociologia e socialismo e, sim, de uma consciente defesa da liberdade e autonomia dos cientistas sociais perante as ameaças de empobrecimento e deturpação dos seus critérios objetivos de descoberta da verdade. Essas considerações podem ser trazidas para o momento atual, a fim de se questionar em que medida a impregnação burguesa do horizonte intelectual dos cientistas sociais, por intermédio de suas acomodações institucionais e ignorância dos movimentos mais profundos de transformação da ordem capitalista, que ocorrem à sua revelia, têm produzido deturpações mais ou menos graves em suas categorias de análise e provocado a impossibilidade da própria ciência. Talvez, agora, mais do que antes, numa época de indiferença e confusões dos cientistas sociais quanto a seus próprios papéis, seja preciso seguir o exemplo de Florestan em sua corajosa proposta de fundir conhecimento sociológico e movimento socialista.

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