ADORNO

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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Zeca Baleiro, a formiga e a cigarra

Há muitos anos, alguém me contou a fábula da formiga e a cigarra. A formiga representa o trabalho; a cigarra passa a vida tranqüilamente a cantar e não se prepara para enfrentar o período difícil que se avizinha. A formiga é trabalhadora e acumula para enfrentar o inverno, a cigarra, não. Quando, no inverno, pedir a ajuda da formiga, merecerá o desprezo.

Demorei a compreender a ideologia contida na fábula. Aprendi que a formiga expressa o “espírito capitalista” e a cigarra a sua negação. Mas a fábula mostra apenas parte da realidade. Na verdade, precisamos de alegria, não vivemos apenas para trabalhar. É de se supor que o canto da cigarra torna mais suportável a labuta da formiga. Por outro lado, a cigarra, ao seu modo, também trabalha. Embora seja outro tipo de trabalho, não produtivo.

A sociedade moderna transformou tudo em mercadoria. A arte de cantar também é um produto a ser comercializado. Se a cigarra não se sai bem na fábula, na vida real a arte movimenta cifras exorbitantes. E como a minoria vive do trabalho dos milhares de “formigas” que diariamente produzem riquezas, também há poucos que lucram com o canto das “cigarras”. Na fábula a cigarra não explora a formiga, mas pede ajuda. Teria o direito de exigir a recompensa pelo cantar. Mas a moral da história não admite a solidariedade, quando muito aceita o assistencialismo. Assim, os que não conseguem acumular não merecem socorro. A fábula convence os desavisados e ignorantes sobre os mecanismos de funcionamento da sociedade moderna. E, é claro, os que compartilham conscientemente desta ideologia.

Esta fábula me veio à mente quando, em minha caminhada, ouvia Zeca Baleiro.* Maravilhado com a melodia e letras, pensei: “Ainda bem que existem artistas como Zeca Baleiro! Suas músicas e poesias fazem sentir o pulsar da vida, alimentam o espírito. E, como afirma o dito bíblico, nem só de pão vive o homem”. Sorri e continuei a caminhar, ouvindo Zeca Baleiro. Se o encontrasse, agradeceria.

O trabalho do Zeca Baleiro, como da cigarra, não é considerado produtivo. Da mesma forma que o que faço também não o é. Escrever estas linhas, por exemplo, exigiu uma reflexão que se iniciou naquela caminhada e que me fez ouvir novamente as músicas e prestar mais atenção às letras; me trouxe as memórias da infância, as minhas experiências de “formiga” e também me fez pensar sobre as teorias que aprendi, os livros que li e a realidade social do meu tempo. Mas tudo isso não produz nenhuma mercadoria material, mas apenas um texto de poucas linhas que será lido por algumas almas benevolentes.

Se escrever é improdutivo, é também uma necessidade humana. Da mesma forma que a música do Zeca Baleiro. Suas palavras, sua poesia, ressoam em minha mente e me sinto melhor. O humano que há em mim se reconhece no ser genérico homem e mulher, humanidade, enfim. E compreendo melhor a mim mesmo e ao outro que é tão diferente, mas também tão igual. Então, recordo Dostoievski e sua sentença de que é fácil amar a humanidade, o difícil é amar o próximo, o ser particular concreto, que pode ser o seu vizinho, o colega de trabalho. Ele está certo! Os homens e mulheres específicos e concretos são muito difíceis. Mas se a música e a poesia, como a literatura, educa a nossa sensibilidade, também ajuda a conviver.

O trabalho da cigarra é tão importante quanto o da formiga. Agradeçamos às “formigas” que produzem tudo o que o corpo precisa para se reproduzir; e também às “cigarras” pelo cantoria. Afinal, somos humanos que também precisam de música e poesia. Obrigado aos operários que produziram o MP3 e ao Zeca Baleiro que deu razão de ser à tecnologia. A fusão de ambos torna mais belo e suportável o viver.

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