Aretino(1492-1556), um modelo do individualismo (tela de Ticiano) |
"Foi a Itália, a primeira a rasgar o véu e a dar sinal para o estudo objetivo do estado e de todas as coisas do mundo; mas, ao lado desta maneira de considerar os objetos, desenvolve-se o aspecto subjetivo: o homem torna-se indivíduo espiritual e tem consciência deste novo estado...[tal como] se elevara o Grego em face ao mundo bárbaro. (...)No século XIV, a Itália quase não conhece a falsa modéstia e a hipocrisia. Ninguém tem medo de ser notado, de ser e aparecer diferente do comum dos homens." (Jacob Burckhardt - A Civilização da Renascença italiana, especialmente na IV parte)
Lesseps, (1805-1894) o indivíduo saint-simoniano |
1º - Levar, enquanto ainda dotado de vigor, uma vida a mais original e ativa possível
2º - Inteirar-se cuidadosamente de todas as teorias e de todas as práticas
3º - Recorrer a todas as classes sociais e colocar-se pessoalmente em cada uma delas, mesmo as mais diferentes, chegando inclusive a criar relações que não existiram antes
4º - Empregar a velhice em resumir as informações coletadas sobre os efeitos que resultaram das suas ações, para estabelecer novos princípios sobre a base deles
Fonte: Sébastien Charléty - "História del sansimonismo", 1969, pag. 18
Destoando desses modelos, que afinal enalteciam as Artes e o Progresso, um novo tipo de indivíduo começou a ser esboçado pela intelligentsia russa na século XIX. O herói niilista, o raznochintsy, o tipo fora da classificação social conhecida, que elegia, inspirado na filosofia do romantismo alemão e no socialismo francês, a entrega total a uma causa como a razão do seu destino. Ele desprezava os valores em que vivia, elegendo o nada (niil) como ponto de afirmação e de partida.
I.Turgueniev (1818-1883), difundiu o niilista |
M.Bakunin (1814-1876), exemplo para os niilistas |
1 - O revolucionário é um homem perdido. Não tem interesses próprios, nem causas próprias, nem sentimentos, nem hábitos, nem propriedades; não tem sequer um nome. Tudo nele está absorvido por um único e exclusivo interesse, por um só pensamento, por uma só paixão: a revolução.
2 - No mais profundo do seu ser, não só de palavra, mas de fato, ele rompeu todo e qualquer laço com o ordenamento civil, com todo o mundo culto e todas as leis, as convenções, as condições geralmente aceitas, e com a ética deste mundo. Será por isso seu implacável inimigo, e se continua vivendo nele será somente para destruí-lo mais eficazmente.
3 - O revolucionário deprecia todo o doutrinarismo: renunciou a ciência do mundo, deixando-a para a próxima geração. Ele só conhece uma ciência: a da destruição.
4 - Despreza a opinião pública. Despreza e odeia a atual ética social em todas as suas exigências e manifestações. Para ele é moral tudo o que permite o triunfo da revolução, e imoral tudo o que a obstaculizar.
5 - O revolucionário é um homem perdido. Implacável com o estado e, em geral, com toda a sociedade privilegiada e culta, de quem ele não deve esperar piedade nenhuma... Cada dia deve estar disposta a morte. Deve estar disposto a suportar a tortura
6 - Severo consigo mesmo, deve ser severo com os demais. Todo os sentimentos ternos e abrandados sentimentos de parentesco, de amizade, de amor, de agradecimento e inclusive de honra, devem ser sufocados nele por uma única e fria paixão pela causa revolucionária.
7 - A natureza de um autêntico revolucionário excluiu todo o romantismo, todo sentimentalismo, todo entusiasmo e toda a sedução.. Exclui também o ódio e a vingança pessoal. A paixão revolucionária convertida nele em paixão de cada dia, de cada minuto, deve ser seguida pelo cálculo frio. (...) Liguemo-nos com o mundo livre dos bandidos, o único autenticamente revolucionário na Rússia.
8 - Reagrupar este mundo numa força invencível; eis aqui a nossa organização, nossa conspiração, nossa tarefa.
Fonte: Franco Venturi - El populismo ruso, 1975, Vol II, pag. 595-6
Nietzsche (1844-1900), o criador do super-homem (óleo de Baroda) |
Despreza a religião cristã, com seu Deus morto, cuja ética ele considerou uma espiritualização da antiga casta dos sacerdotes que se juntou à fraqueza, à pobreza e à covardia da gente comum. O Cristianismo é uma teologia de ressentidos, uma fé de enfermos e de desgraçados. Liberto das cangas pesadas e inibidoras da moralidade cristã e burguesa em que foi educado e formado, o super-homem, seguramente, irá forjar "com companheiros que saibam afiar a sua foice" uma nova moralidade. Habitando "a casa da montanha" ou a floresta, incessantemente superando a si mesmo, altivo como a águia e astuto como a serpente que acompanham Zaratustra, o seu anunciador, ele, com seus colaboradores, chamados de "destruidores e desprezadores do bem e do mal", inscreverá "valores novos ou tábuas novas". Ele é o devir a ser, ele é o futuro.
| As características do super-homem | |
| Como se reconhece | Pela personalidade extraordinária e pelo caráter forte, inquebrantável. Não pelo nascimento nem pela educação, mas pela inequívoca presença e fascínio que exerce sobre os demais. Por sua olímpica arrogância. |
| Onde ele se encontra | No futuro, no devir a ser, ele trará as novas tábuas não mais presas aos conceitos do bem e do mal |
| Qual a sua morada | A casa da montanha, os altos picos, acompanhado pela águia e pela serpente, bem distante da moralidade convencional e do cristianismo |
| Quais as leis que obedece | As que ele mesmo faz. O super-homem é o legislador de si mesmo e o autor das suas próprias e exclusivas regras |
| O que ele ama | O seu corpo, do qual não tem vergonha. Ele se exibe, se mostra, aceita a sensualidade como natural e não tem a mínima idéia do que é ou representa o pecado. A vida é proliferação e exuberância, é domínio, amor e crueldade. Em seguida a isso, ama os valentes, os corajosos, os que dizem sim a vida, os audazes que não se prendem aos limites e não temem o desconhecido. |
| Quais são seus inimigos | Os sacerdotes, os pregadores da morte, seres vingativos que detestam a vida e veneram o além. O cristianismo com sua moral de escravos, de gente impotente e ressentida com a vida. |
| O que ele detesta | A canalha, o populacho, porque envenena tudo o que toca. O seu sentimentalismo mela tudo, tem bocarra grotesca e sede insaciável. Chega a duvidar que a vida tenha a necessidade deles. Não tem consolo para o corcunda, para o doente, para o fraco e covarde. Quer que eles desapareçam, que sumam. |
| O que mais odeia | A idéia de igualdade defendida pelos democratas e pelos socialistas. O injusto é tentar fazer iguais os desiguais. |
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